Oh, que estranhos figos que há nos figueirais:
Mordidos d'abutres!… Figos que dão ais!…

Lavrador-còveiro, lavrador-còveiro,
Colhe-me essas bebras que já teem mau cheiro…

Se é fruta de embarque, vai pelo caminho
Desfazer-se toda nos caixões de pinho…

Fruta de tal raça, cavador lunar,
Só a quer a Morte para o seu jantar!…

O REI:

Dou às vezes razão ao tonto do cronista…
Que lhe querem! não é agradável à vista,
Por noite negra uma bandada de milhafres,
Grasnando e devorando, à maneira de cafres,
Uma ceia de carne podre…

CIGANUS:

Que limpeza!
Deixe-os comer… deixe-os comer… Varrem a mesa.
Mortos e mortos na floresta à dependura,
Um açougue… Não há còveiro, nem há cura,
Nem tochas, nem latim para tanta carcassa…
Os corvos, meu senhor, enterram-nas de graça.
Admiráveis glutões, em bambocha funérea
Liquidam numa noite a questão da miséria.
Jantam-na. Devorado o problema. Afinal
Restam ossos; convêm: tem fosfato de cal,
Bom adubo…
E no entanto o país, meu Senhor,
É uma beleza! uma beleza! encantador!
Trinta portos ideais, um céu azul marinho,
A melhor fruta, a melhor caça, o melhor vinho,
Balsâmicos vergeis, serranias frondosas,
Clima primaveral de mandriões e rosas,
Uma beleza! Que lhe falta? Únicamente
Oiro, vida, alegria, outro povo, outra gente.
Raça estúpida e má, que por fortuna agora
Torna habitável êste encanto… indo-se embora!
Deixe morrer, deixe emigrar, deixe estoirar:
Dois boqueirões de esgôto,—o cemitério e o mar.
Que precisamos nós? Libras! libras, dinheiro!
Libras d'oiro a luzir! Onde as há? No estrangeiro?
Muito bem; o remédio é claríssimo, é visto:
Obrigar o estrangeiro a tomar conta disto.
Impérios d'alêm-mar, alquilam-se, ou então
Sorteados,—em rifa, ou à praça,—em leilão.
E o continente é dá-lo a um banqueiro judeu,
Para um casino monstro e um bordel europeu.
Fazer desta cloaca, onde a miséria habita,
Um paraíso por acções,—cosmopolita.
Dar jôgo ao mundo, ao globo! uma banca tremenda!
Calculo eu daí uns mil milhões de renda.
O comércio, dez mil… O trânsito, sem conta…
Cifras, Senhor, de pôr uma cabeça tonta!
De minuto a minuto, expressos e vapores,
Sempre a golfar carregações de jogadores,
Montões de malas, sacos d'oiro, (libras, luíses!)
Nuvens de cortesãs, dançarinas e actrizes,
Equipagens, Barnoums, touristes, saltimbancos,
Vinte raças,—mongóis, negros, mestiços, brancos,
Um ruidoso vaivêm humano que circula,
Todo fausto, esplendor, alta luxúria e gula,
O mylord, o nababo, a Rússia, a Índia, a América,
Numa promiscuìdade esplêndida e quimérica!
E todo êste país, éden de regabofe,
Iluminado à noite a faróis Jablokoff!
Que maravilha! que surpresa! que grandeza!
E que tesoiros nesta rica natureza,
Cultivando-a a primor! Em logar d'erva e searas,
Plantas de luxo: coisas finas, coisas caras.
Eu imagino, (dando os máximos descontos)
Que o reino lucrará uns trezentos mil contos,
Sómente a produzir, ao ar livre e em estufas,
Ananazes, faisões, ópio, champagne e trufas.

Relâmpagos e trovões. Paisagem deserta. A nau fantasma, cortada a amarra, bamboleia nas ondas, prestes a largar. Uma sombra disforme, como de ave gigante, voa na escuridão.

O REI: