O DOIDO, na escuridão:
Em noite sem lua, numa nau sem leme, fui descobrir mundos,
Mundos pelo mar…
O vento sopra, o vento sopra…
Quanta areia negra faz turbilhonar!
—Mundos a voar… mundos a voar…
Por manhã doirada, galeão doirado vinha cheio d'oiro!…
Rubins scintilantes,
Pérolas, diamantes…
Vinha cheio d'oiro…
O vento sopra, o vento sopra…
Que cinza de campas se alevanta ao ar…
—Meu oiro a voar… meu oiro a voar…
Castelos nas praias, galeras nas ondas, reinos d'alêm-mar!…
O vento sopra, o vento sopra…
Que bandos de nuvens!… vão-se a desmanchar!…
Castelos… galeras… reinos d'alêm-mar…
Foi um sonho lindo… foi um sonho lindo…
Como é bom sonhar!…
Acordei sem alma… quem me encontra a alma…
Quem ma torna a dar!
Queimou-se o casebre… só tições escuros, só carvões escuros,
Inda a fumegar…
(Quem ma torna a dar!)
Que bem dormiria debaixo dos muros…
Tão quente!… debaixo das pedras do lar!
Oh, que inverneira! oh, que inverneira!
Crestou-me o vinhedo, secou-me o pomar!
A terra levou-a… deixou-me só fragas…
Deixou-me só fragas, para as eu calcar…
Peguei na minha dor, botei-a às fragas…
Não tinha mais que semear!
O que viria, o que viria
Da minha dor na primavera a rebentar?…
Um tronco despido me brotou das fragas,
(Que singular! que singular!)
Um tronco despido,
Sem ramos, sem fôlhas… um tronco no ar!
Depois medrou tanto, como por encanto,
Que andadas três luas era secular!
E nem uma fôlha e nem um raminho,
Onde um passarinho poisasse a cantar!…
Um tronco no ar!
Mas de repente, de repente
Deitou dois braços, logo um par!
Braços estendidos, abertos e nus,
Como que a chamar… como que a chamar…
Mas, oh Deus! que vejo! uma perfeita cruz,
Uma cruz erguida sôbre um grande altar!…
Minha dor nas fragas, entre uns estilhaços
De rochedos duros no que veio a dar!…
………………………………………
Inda bem! Ora inda bem que já no mundo há braços,
Para me abraçar!…
O REI:
Já 'stou farto de cantochões, de ventania
E dos agoiros!… Passa das três; é quási dia…
Vamos dormir…
Apontando o pergaminho:
Cá deixo esta léria assinada.
Falaremos depois. Rendez-vous na toirada.
SCENA XII
O REI, só, ao fogão, olhando o pergaminho: