Belo! toca a assinar o papelucho e cama.
Vão-se os pretos! Adeus, pretangada e moirama!
Inda bem! Já ninguêm desde hoje me seringa,
Levantando questões dum cafre ou duma aringa.
Durmo esta noite como um odre. Para insónias
O remédio é mandar à tubúa as colónias.
Que se governem! tudo ós quintos! tudo à fava!

Olhando os retratos da dinastia:

O que diriam disto os maganões?… Gostava
Duma palestra com vocês… Vinha n'altura…

Trovão retumbante. Os cães ululam. Diante do rei, varado de assombro, ergue-se de improviso o fantasma de D. João IV. O rei quer falar, quer fugir, mas paralítico de mêdo, olhar atónito, nem um gesto, nem um ai, nem um grito. Desfalece, caíndo imóvel.

SCENA XIII

O ESPECTRO DE D. JOAO IV, ar untuoso, manhoso, beato, falso e pusilânime:

Tens mêdo de assinar? Pesa-te a assinatura?
Vais ouvir meu conselho:
Ânimo bravo e ardente,
Em lacaios fieis predicado excelente.
Num monarca já não… A fraqueza traiçoeira,
D'olhos de lince e passos mortos de toupeira,
Vence tudo… Precisa um rei de heroismo audaz?
Serve-se dos heróis e fica êle em paz.
Nada que nos perturbe a digestão e o sono;
Para dar bom assento é que se fez o trono.
Os reis são reis e os homens cães, em vário estado:
Ou cães de caça ou cães de fila ou cães de gado…
Mas tudo cães. Chicote a uns e a outros festa,
Eis do govêrno a arte; é bem clara; só esta.
Com os homens, assim. Com Deus, trato diverso.
Tu és o rei dum povo, êle o rei do universo.
Depois da morte há inferno e paraíso; então
Lida sempre com Deus, como bom cortesão.
Vale a pena. Medita as chamas infernais,
As mil cobras de fogo em doudas aspirais,
Enleiadas a nós!… que tortura! que horror!
Ah, vale a pena servir Deus e ter-lhe amor!
Não só a Deus; aos santos todos! E a Maria,
À Virgem-Mãe, oh filho! a essa, noite e dia
É rezar; é rezar de joelhos na capela!
A nada atende Deus como a um pedido dela.

Firma o tratado. Firma-o de pronto e sem receio.
Entre as hostes iguais a dúvida, no meio,
Hesita, é bem de ver… Mas neste caso, em suma,
Não encontra a razão hesitação alguma.
O teu povo dum lado e o bretão do outro lado;
Ora, entre um borrego e um leopardo esfaimado,
Não há brio a atender, há vida a defender.
O leopardo é o mais forte: assina… tem de ser.
A fera vem bramindo e quer do teu jantar;
Chicoteá-la? Não; pode-te estrangular.
Dividirás com ela; e tu, quietinho e manso,
Fica à mesa comendo o resto com descanso.
Creio que para ti e para herdeiros teus
Há-de ainda chegar talvez, graças a Deus.
Graças a Deus e à Virgem-Mãe, a quem eu dei
A tutela do reino e o coração do rei.

Desaparece.

O DOIDO, na escuridão: