Dum duque fiz um rei; e o rei me disse: Vamos
Ouvir à igreja (era de noite) o meu Te-Deum laudamus.
Era de noite… era de noite… na encruzilhada,
Quando me viu, cantou um galo preto uma alvorada.
Bonita festa, (disse eu entrando) bonita festa!
Que igreja esta
Tantos panos escuros… tantos panos escuros,
Velando os muros!
E um esquife sombrio
Num catafalco… um grande esquife negro, inda vazio!…
Mas coisa horrenda e de pasmar,
O altar! o altar!
Crucificado num madeiro um cordeirinho branco exangue
E treze tochas de gangrena azul, chorando sangue!…
Veio da sacristia a cleresia… Olhai, olhai
O padralhame que aí vai!
Raposas sarnentas e lôbos gordos ulcerados,
—Dominus vobiscum!—todos paramentados e mitrados.
E era um bode de andaina vermelha o sacristão,
Um bode carcunda, ventrudo e lanzudo, galhetas na mão.
E quem cantou a missa de pontifical
Foi o rei! era o rei… tal e qual! tal e qual!
Mas tinha rabo de raposa e tinha olhos de chacal!
Cantava de papo, cantava de papo,
E a bôca imunda, sem tirar nem pôr, uma bôca de sapo!
O Espírito baixou então divinamente,
Poisou no rei, e o rei lhe disse:—Olá! olá, Vicente—
E as dois órgãos ao fundo, que rouquidões!
Grunhindo trovões por entre os cantochões!
E toda a padralhada, no seu cartimpácio,
—Oremus! Oremus! Santo Inácio e mais Santo Inácio!—
E ao levantar a Deus emfim,
De hóstia e cálix na mão, o rei voltou-se para mim:
—Êste vinho é o meu sangue. Êste pão negro é o meu corpo:
Toma lá o meu sangue, toma lá o meu corpo.—
Cuspiu no cálix, deu-mo a beber, bebi… bebi…
E a hóstia impura, nem sei de azêda como a enguli!
E envenenado fiquei… envenenado fiquei
Pelo corpo do rei, pelo sangue do rei!
Envenenado e paralisado,
Mas inda a ver, inda a sentir… como um dormir
De defunto acordado…
Então o rei pegou num cutelo, abriu-me o peito,
Meteu as mãos… e tirou-me a alma com todo o geito!
Era uma virgem, corpo de deusa, branca e nua,
Como que feita, num sonho triste, do alvor da lua…
A minha alma aquela! a minha alma aquela!
Oh, nunca a imaginei assim, tão formosa e tão bela!
Mas que ar de nojo e de amargura
Envolvendo-a, pálida e branca, em noite escura!
Deitaram-na ao caixão, pregaram-lhe a tampa às marteladas,
E o rei,—Oremus! Oremus! Oremus!—
Às gargalhadas.
E no madeiro o cordeiro manso, dolorido,
Deu o seu último gemido…
E expiraram no altar
As treze velas bentas de rosalgar…
E a cleresia pela noite, em chusma, como assombros,
Debandando e levando o esquife, aos encontrões, nos ombros…
E a mim deitaram-me a dormir num fraguedo deserto,
Sem alma, com o peito um rasgão de sangue, todo aberto!…
Ei-lo aqui… ei-lo aqui… Nunca o deixei cicatrizar…
Que é para a alma, quando me volte, poder entrar…
As almas não morrem…
As almas não morrem…
Nem Deus, tendo-as feito, é capaz de as matar!…
SCENA XIV
O ESPECTRO DE D. AFONSO VI, que entra alucinado, hemiplégico, azorragando, furioso, uma matilha de cães imaginária:
Ah, marotos! ladrões!… ladrões!… perros danados!…
Vão inda perseguir-me à tumba êstes malvados!
Assassinos! ladrões! Nem no sepulcro existe
Repouso para um morto, alívio para um triste!
Nem debaixo da terra emfim, víboras más,
Me deixais, me deixais apodrecer em paz!
Nem morto dormirei… coitada criatura!
E como o sono eterno é bom, ó noite escura!…
Ah, como é bom dormir… dormir… dormir… dormir!…
Não ter alma, não ver, não gemer, não sentir!…
Sem reino, sem mulher, sem irmão, sem cuidado,
Dormir… dormir!… Que brando leito de noivado!…
……………………………………………..
Mas foram-me acordar, os malditos!… Já sei…
O que querem de mim… Já sei… Já sei… És tu, El-Rei?
Foi mandado d'El-Rei… Já sei… lembro-me agora!…
……………………………………………..
Assina tudo… assina tudo e sem demora.
Tens mêdo de perder o trono, de o largar?
Ah, deixa-o ir, deixa levar, deixa roubar!…
Que leve trono e scetro e c'roa quem quiser…
Para ti… para ti… guarda os cães e a mulher.
Guarda a mulher… guarda a mulher! Bem conta nela!
Tens irmão? Tens irmão!… Pobre de ti!… cautela!…
Não há crer em irmãos, nem há fiar em mães!
Que levem tudo, tudo… excepto a amante e os cães!…
Oh, as noites d'amor!… oh, as manhãs de caça!…
Indo a saír e parando de repente, ao ver os cães:
Tens fracos cães… Adeus… Fracas ventas… má raça!…
O DOIDO, na escuridão:
Quem me roubou da fronte o meu diadema?…
Quem ostenta na fronte o meu diadema?…
—Teu irmão!
Teu irmão!
Quem abraça a raínha no meu leito?…
Alva, loira e mimosa no meu leito?…
—Teu irmão!
Teu irmão!
Quem bate as brenhas com meus cães de caça,
Ao luzir d'alva com meus cães de caça?…
—Teu irmão!
Teu irmão!