SCENA XIX

O ESPECTRO DE D. JOAO VI:

Toca a sentar! deixa sentar esta carcassa,
Já roída do bicho e comida da traça!
Um corpo que pesou talvez seus dois quintais,
Ou mais,
Hoje é isto! olha lá, mira-me bem em tôrno:
Uns vinte arráteis d'osso e outros tantos de corno!
P'ra que diabo é que Deus fez a alma imortal,
Não me dirão?! O corpo, acho eu natural
Que engordasse e medrasse em paz na eterna glória;
Mas a alma! ora cebo! Uma alma incorpórea,
Sem bôca, sem nariz, sem barriga, sem nada,
Que não come um leitão, nem funga uma pitada,
Deus me perdôe a asneira, uma indrómina assim,
Inda que êle a engenhou, não me convêm a mim!
A morrer por morrer, antes a alma; em suma,
O desgôsto era leve, a perda era nenhuma.
E o corpo desalmado, escorreito e perfeito,
Êsse é que Deus com todo o geito
O devia levar, dando-lhe a eternidade,
P'ra comer como um porco e roncar como um frade.
Neste mundo em que'stou, nesta vida infinita,
Grande falta me faz a barriga, acredita!
Os miolos, já não… E, caso estranho, agora
Penso muito melhor do que pensava outrora…
Dão-me ideias! que espiga!… Atribuo tais factos
A andar-me na caveira uma porção de ratos.
Ideias!… Qual a ideia humana, por sublime,
Que se compare ou se aproxime
Dum peru com arroz, bem gordo e bem tostado?!
Que é a vida? jantar! E a morte? ser jantado!
Comer ou não comer, eis a eterna questão.
Mas comer com descanso e com satisfação.
Comer em paz; sem um remorso e sem fadigas.
Nada de inquietações mortais, nada de brigas!
Temor a Deus, mesa de abade, cama quente
E rir a gente!
Eu fui um infeliz como não há segundo,
Um malaventurado aos tombos pelo mundo!
A mulher uma cabra; os filhos um veneno;
Sustos; o hemorroidal, vê lá, desde pequeno!
E não parar! sempre em bolandas, sempre à tôa…
Que vida! E como a vida, apesar disso, é boa!
Oh, cantochões em Mafra!… oh, merendas no Alfeite!…
Oh, séstas de Queluz em Junho!… Que deleite!…
Manda ao demónio a guerra, a mulher e os cuidados!
Enfardela-me aí cem milhões de cruzados
Em peças d'oiro, assina o que tens de assinar,
Veste o capote, leva a c'roa e põe-te a andar!
Deixa os ingleses… Fracas bêstas!… raça vil!…
Muda-te p'ró Brasil… Muda-te p'ró Brasil!
Fruta maravilhosa e súbditos leais…
Eu, no teu caso, até não voltava cá mais.
E o povo, adeus!… que se governe… emfim, paciência…
E cá lhe fica, que mais quer? a Providência!…
…………………………………………………
Boas noites… É tarde… o sepulcro me chama…
Vou-me deitar… Que fria e triste a minha cama!
Gêlo e chumbo!… Os lençóis, farrapos com matéria,
Nem me tapam sequer os ossos, que miséria!
E depois sôbre mim, em cardumes, aos centos,
Pulgas da eternidade, os vermes fedorentos!
Ai, no jazigo escuro, a esfarelar-me em pó,
Consola-me uma ideia única, uma só:
Não tornar a sofrer (oh podridão calada!)
Nem de hemorróidas, nem de gases, nem de nada!…

Desaparece.

O DOIDO, na escuridão:

Que noite escura! Que noite escura!
Bramem as ondas cavernosas…
A grande armada vai largar…
Oh, a armada do rei!… oh, as naus pavorosas
Na escuridão, turbilhonando, a baloiçar!…
São esquifes mortuários,
São féretros com velas de sudários,
Tumbas negras nas ondas a boiar!…
Ai que gemidos, que alaridos
De multidões na praia, olhando o mar!…
Lá vem o rei… lá vem a côrte… e luzes, luzes
De brandões, de tocheiros a sangrar…
Vai a embarcar?… vai a enterrar?… Não trazem cruzes,
Nem há sinos por mortos a dobrar…
Oh, a lúgubre, estranha comitiva
A bandada de espectros singular!…
É gente morta?… é gente viva?…
Procissões de defuntos a marchar!…
Cortesãos, cavaleiros e soldados,
Tudo esqueletos descarnados,
Olhos de treva e crânios de luar!…
Ladeiam côches fúnebres doirados…
São os côches d'El-Rei… vai a enterrar?…
Lá se apeiam as damas das liteiras…
Gestos de manequins, rir de caveiras…
Fitas e plumas sôltas pelo ar…
Olha a raínha, vem em braços, morta e doida.
Morta e doida a clamar que a vão matar!…
E o rei!… olhem o rei!… que rei de entrudo!…
Um porco em pé, com manto de veludo
E c'roa na cabeça, a andar, a andar!
Mas reparem… tem cornos! é cornudo!
Dois chavelhos de boi no seu logar!
Um rei, que é porco e tem chavelhos!
Um rei, que é porco e tem chavelhos!
Que fantasia! enlouqueci… ando a sonhar!…
Mas bem no vejo! eu bem no vejo,
C'roa de rei, tromba de porco e chifres no ar!…
………………………………………….
Cái de rastros, chorando, o povo inteiro,
Beija-lhe a côrte as patas e o trazeiro…
E êle a grunhir! e êle a roncar!…
………………………………………….
Lá vão as naus… lá vai o rei com seus tesoiros…
E lá ficam na praia, como agoiros,
As multidões soturnas a ulular!…
………………………………………….
………………………………………….
Olha uma águia rubra, uma águia bifronte,
Incendiando o horizonte,
A voar, a voar, a voar!…
Ai dos rebanhos!… ai dos rebanhos!…
Águia de extermínios, onde irás poisar?!

SCENA XX

O ESPECTRO DE D. MARIA II:

Inclina um rei perante um rei (somos iguais)
A realeza. Perante um vassalo, jàmais!
O monarca ao monarca (é irmão com irmão)
Dobra o orgulho sem infâmia; o rei ao povo, não!
Assina, e já! Príncipe vil, que se amedronte,
Usa, mas sem direito, um diadema na fronte.
Povo em rebelião, não é povo, é canalha.
Beija-te os pés?—indulto. Ergue o braço?—metralha.
Faltam soldados e clavinas? Pouco importa:
El-Rei de Espanha os mandará; tem-los à porta

Desaparece.