O DOIDO, na escuridão:
Tremia a raínha de me ouvir cantar…
Oh, loucura minha, desventura minha!
Cantigas são asas, fazem-nos voar…
Mandou-me prender, mandou-me espancar.
E eu desatei a rir, eu desatei a rir,
E três dias cantei com mais três noites a seguir!…
Não dormia a raínha de me ouvir cantar…
Oh, loucura minha, desventura minha!
Cantigas são graças para não chorar…
Mandou-me prender, mandou-me enforcar.
Chegaram as tropas e eu, desarmado,
Zás! desbaratei-as com o meu cajado!
E pus-me a cantar! e pus-me a cantar!
Tremendo, a raínha disse então ao rei:
«Emquanto o não matem não descansarei.
Com teus cavaleiros vai-mo tu buscar,
Traz-mo aqui de rastros para o degolar.»
Veio o rei à frente dum grande estadão,
Zás! desbaratei-o com o meu bordão!
É de temer, é de temer
Um doido varrido com um pau na mão!…
E sempre a cantar! e sempre a cantar!
Então a raínha, vileza traiçoeira!
Chamou inimigos d'alêm da fronteira…
E tantos! e tantos!… Que havia de eu fazer?…
Quebrei de raiva o meu bordão e deixei-me prender…