Levado de rastros aos pés da raínha,
Cuspiu-me na cara!
Oh, vergonha minha! por fortuna minha,
Melhor me matara!… melhor me matara!…
O gôsto que teve durou-lhe bem pouco…
Foi ela que morreu!… foi ela que morreu!…
Vi-a passar já no caixão, ia a enterrar…
E sabeis o que eu fiz? (o que é ser louco!… o que é ser louco!…)
Desatei a chorar!…
SCENA XXI
O ESPECTRO DE D. LUIS
Que remédio, meu filho! assina tudo… assina tudo…
Glória, Pátria, Dever,
Bom de dizer!
Assina tudo e vai andando… vai andando…
Do mister de reinar, que Deus te deu em sorte,
Faz, como eu fiz, modo de vida e não de morte.
E a vida é boa!
A alegria do sangue, os regalos da C'roa,
A mulher, o charuto, o livro, o leito, a mesa,
Lista civil, paz e descanso… Com franqueza,
A vida é boa, e vale a pena de a gozar,
Como néctar precioso e raro,—devagar!
Com um pouco de astúcia, um pouco de bondade,
Covardia risonha e indolência de frade,
Conseguirás viver alegríssimamente
Até ser posto de escabeche em S. Vicente.
E, se o destino te arrancar o scetro, vai-te embora
Filosóficamente, sem demora,
Dedicando no exílio uns ócios eruditos
A traduzir em português os meus escritos…
Vae a saír e retrocede.
É verdade, Pedro faltou… faltou… não veio…
Pedro! meu pobre irmão! Acordei-o, chamei-o,
Quis levantar-se, ergueu a fronte, abriu o olhar,
Exalou um suspiro… e tombou a chorar!…
Desaparece.
O DOIDO, na escuridão:
O reino é podre… o rei é podre…
Oh, que fedor! oh, que fedor!
Quando a planta apodrece, a podridão
Germina em margaridas pelo chão…
Quando apodrece a carne, a sepultura
Touca-se de verdura…
Lepras e pus, chagas e cancros
Dão jasmineiros, dão lírios brancos…
Mas do reino e do rei apodrecido,
Oh, que fedor! oh, que fedor!… que tem nascido?
Mais podridões a fermentar,
Envenenando a terra, envenenando o ar.
A gente morreu toda envenenada…
É côr de sangue a lua, é de crepe a alvorada!…
Desfolharam-se os bosques pelos montes,
Há nas rochas gangrena, há peçonha nas fontes!
Destruíram-se os ninhos
E emigraram, chorando, os passarinhos!
Vivo, só eu fiquei neste monturo
De lôdo escuro!
O reino é podre… o rei é podre… tudo é podre…
Oh, que fedor! oh, que fedor!…
O REI, volvendo a si, atónito e desordenado: