Arrojando a espada ao abismo da noite:
Deus te acompanhe! Seja Deus louvado!
Desaparece. O rei fica no chão, imóvel e sem acôrdo.
SCENA XXII
O espectro de Nunalvares atravessa, resplandecendo, a escuridão nocturna. Enxerga a distância, o vulto fantástico do doido. Pára, surpreendido. Contemplam-se.
O ESPECTRO DE NUNALVARES, melancólico, fitando o doido:
Se esta alma, há três séculos gemendo,
Em carne humana andasse, e, dia a dia,
A perdição da pátria fôra vendo,
No semblante de louca amostraria
Aquela dôr soturna e tenebrosa,
Aquele olhar de pasmo e de agonia!…
O DOIDO, absorto:
Oh, que figura estranha e luminosa!…
Que aparição aquela!…
E eu já a vi… eu já a vi… lembro-me dela…
Mas onde foi?… Cabeça tonta!… Onde seria?!…
Ah, ah, já me recordo!… quando eu vivia,
Tive assim um parente… um irmão… Um irmão?
Eu nunca tive irmão!…
Oh, que loucura! oh, que loucura!
Mas eu conheço êste fantasma… esta figura…
Aquele ar singular de guerreiro e de monge…
Eu conheço-o… Mas onde foi?… quando é que foi?… lá muito ao longe…
Muito ao longe… Ora espera!… Já sei! Não era irmão, não era!…
Fui eu próprio!… Fui eu assim!… Fui eu! fui eu! fui eu!
É tal e qual… é exacto,
O meu retrato!…
Fui eu!…
………………………………………………………
Ah, fui eu… um outro eu… que andou no mundo e já morreu!…