E a pátria! o meu amor! a pátria bela!…
Em que míngua eu a vejo!… Quem a abraça,
Quem vai lidar até morrer por ela?!…
Já o mundo a meus olhos se adelgaça!…
Montes, fraguedos, tudo se evapora…
São nuvens… sonho… sombra vã que passa…
Quási liberto já!… não tarda a hora…
Sorri-me a Virgem!… como vem brilhante!…
Deus! quanta luz!… que mar de luz! que aurora!…
Queda enlevado, extático, sôbre-humano. Irradia oiro. Descortina, súbito, numa panóplia, a vélha espada de Aljubarrota. O gládio heróico entre cutelos de verdugos! Como eximi-lo à afronta, se já mãos de eleito não devem tocar em ferros homicidas! Embora! Arranca-o, beija-o, ergue-o na dextra, e, da varanda, olhando a noite, em voz soturna de trovão:
Cavaleirosa espada relumbrante!
Se nesse lôdo amargo um braço existe
De profeta e de herói, que te alevante!
Inda bem que na lâmina persiste,
Em crua remembrança e galardão,
Do sangue fraternal a nódoa triste.
Descobre o gládio a quem o houver na mão,
Que ante a justiça recta e verdadeira,
Não há padre, nem madre, nem irmão!
Porêm, se a pátria, já na derradeira
Angústia e míngua onde a lançou meu dano,
Terra d'escravos é, terra estrangeira,
Rútila espada, que brandi ufano!
Antes um vélho lavrador mendigo
Te erga a custo do chão, piadoso e humano!
Volte à bigorna o duro aço antigo;
E acabes, afinal, relha de arado,
Pelos campos de Deus, a lavrar trigo.