A igreja, que por môr dos olhos vossos
Alevantei, ó Virgem da Piedade,
Minha infâmia a ruíu contra os meus ossos!
Grito d'alma naquela imensidade
Tão agudo expedi súpitamente,
Que fez branca de dôr a Eternidade!
Assim horrenda, assim direitamente,
Em quejanda e cruel desaventura
Não foi posto no orbe um ser vivente!
Já dois séculos idos de amargura,
Acreditei que emfim o Criador
Houvera dó da triste criatura:
Do meu sangue de lástima e de horror
Cavaleiroso príncipe foi nado,
Qual nasce duma campa ebúrnea flor.
Ah, o nobre donzel, d'olhar fadado,
A imagem de mim mesmo era talvez,
Quando isento do vício e do pecado.
Risonha aurora em noite se desfez…
Breve expirou, qual expiraram breve
Dentro em mim a virtude e a candidez.
Não perdôa o Eterno a quem lhe deve:
De culpa grande a ofensa lhe devia,
E o castigo aturado, o julgou leve.
Minha dôr empenosa acabaria
Com teu acabamento e sorte infanda,
Último rei de infanda dinastia.
Criatura nojenta e miseranda!
Ó vítima final! já na procela
Descubro o raio, a arder, que Deus te manda!