E astros do céu, povos da terra, ondas dos mares,
Viram passar, como [~u]a águia ovante,
O meu pendão quimérico nos ares!
Retumbaram meus feitos de gigante
Pelo universo, em ecos seculares!
Cavaleiro e argonauta vagabundo,
Gravaram sôbre terra e mar profundo
Mil roteiros de luz os passos meus,
Como se houvera circundado o mundo,
Listrando-o a fogo, o Espírito de Deus!
Minha abrasada crença visionária,
Medindo o globo inteiro, achou-o estreito…
E a alma da humanidade, imensa e vária,
N[~u]a maré de assombros, tumultuária,
Bateu um dia junta no meu peito!
Vinham bandos de frotas portentosas
Páreas de reis trazer-me alegremente:
Maravilhas estranhas, caprichosas,
De longínquas cidades fabulosas,
Berços d'oiro do sol resplandecente!…
Nas mil tôrres, mais altas do que a Fama,
Do meu empório vasto olhando o mar,
Via-se o globo e a cruz como auriflama,
E sôbre globo e cruz, d'asas de chama,
Minha epopeia homérica a cantar!…
………………………………………
Ah, do sono da morte enregelado
Porque havias de, ó alma, despertar?!…
Que é da grandeza heróica do passado,
Que é das tôrres d'outrora olhando o mar?!…
Blocos no chão, vestidos d'heras,
Ameias, gárgulas, esferas,
Poeiras de sonhos, de quimeras,
Luto, nudez, desolação,
Eis os restos de tantos extermínios,
De tanta dôr e tanta maldição!…
Já nem cabe sequer em meus domínios
À magra sombra vã do meu bordão!
Régios palácios, fortalezas,
Mosteiros, campas, catedrais,
Orgulhosos padrões de mil empresas,
Conspurcados de lama e de impurezas,
Entre montes de entulho e silveirais!
Meus impérios distantes divididos,
Minha terra natal inculta e só!…
Loucos de dôr, em torvos alaridos,
Correm bandos de aldeões espavoridos,
Miseráveis tropeis de luta e dó…
Por mim passam atónitos, julgando
Ver um monstro maldito,
Um espectro soturno e formidando…
Da escuridão do nada ressuscito…
Abro os olhos na treva… estendo as mãos…
E de mim fogem com horror, clamando,
Meus parentes, meus filhos, meus irmãos…
……………………………………..
Deus, onde estás?!…
Deus! a mentira eterna!…
Algum lôbo voraz,
Mais piedoso que o céu que nos governa,
Pode emprestar-me um antro, uma caverna,
Onde se durma e se agonize em paz?!…
……………………………………..

Ao cabo dum longo e meditativo silêncio:

Oh justiça do Espírito divino,
Pensando bem, bem clara te revelas
Na trágica lição do meu destino!
Minhas glórias passadas!… É por elas,
Que eu hoje estou sofrendo e me crimino!
Minhas glórias!… infâmias e vergonhas
De ladrão, de pirata e de assassino!
Que bárbaras, que atrozes, que medonhas,
A escorrer sangue negro e pestilento,
As vejo em tôrno a mim neste momento,
Essas glórias nefandas, que eu supus
D'oiro e de luz!
A epopeia gigante!
Empresas imortais! feitos sublimes!
Grandeza louca dum instante…
Miséria eterna… meus eternos crimes!
…………………………………………….
Novos mundos eu vi, novos espaços,
Não para mais saber, mais adorar:
A cubiça feroz guiou meus passos,
O orgulho vingador moveu meus braços
E iluminou a raiva o meu olhar!
Não te lavava, não, sangue homicida,
Nem em mil milhões d'anos a chorar!…
Cruz do Gólgota em ferro traduzida,
Minha espada de herói, ó cruz de morte,
Cruz a que Deus baixou por nos dar a vida;
Vidas ceifando, desumana e forte,
Ergueste impérios, subjugando o Oriente,
Mas Deus soprou… ei-los em nada…
E te cravou a ti, vermelha espada,
Nesta alma de lôbo eternamente!
Ó espada de dôr, abre-me o peito!
Rasga de lado a lado o coração!
Rasga-o, meu Deus, e torna-mo perfeito,
Que eu te bemdigo e louvo e me sujeito,
Sem uma queixa, aos golpes da tua mão!
Seja feita, Senhor, tua vontade,
Venha o remorso igual à iniquidade,
Deus de justiça e luz, Deus de perdão!
……………………………………
Nunca nascido houvera o resplendor
Do dia, em que no abeto milenário
Pus o gume do aço com furor!

Antes aparelhara o meu calvário,
Antes a minha tumba silenciosa
Com o tronco do roble funerário!

Antes mil vezes, do que a aventurosa
Barca ligeira, que levou seu guia
Dos desastres à praia fabulosa!

E, a meus golpes crueis, eu bem ouvia
Uma alma no roble que chorava,
Um coração lá dentro que gemia!

Um coração de avô que perdoava,
Só com ais de amargura respondendo
A cada novo golpe que eu lhe dava.

Eu os traduzo hoje, eu os entendo,
Os merencóreos ais vaticinantes
Das lágrimas de fel que estou bebendo!

À sombra de teus ramos verdejantes,
Ó árvore formosa, bem quisera
Adormecer eu inda como dantes!…

Não abatessem minhas mãos de fera
O teu corpo sagrado, roble augusto,
Patriarca da lei vestido de hera!