Fôsse eu ainda o camponês adusto,
Lavrador matinal, risonho e grave,
D'alma de pomba e coração de justo!
Sentisse eu inda a música suave
Da candura feliz no peito agreste,
Qual em rórida brenha um trino de ave!
Em vez do mundo (fome, guerra e peste!)
Conquistasse, por única vitória,
Os tesoiros sem fim do amor celeste.
Nunca de feitos meus cantasse a História;
Ignorasse o meu nome a voz da Fama
E a minha sombra humilde a luz da Glória.
Vivesse obscuro e triste, erva da lama;
Nas alturas, porêm, fôsse contado
Entre os que Deus aceita, os que Deus ama.
No mundo, bicho ignoto e desprezado;
Mas, nos reinos là luz adamantina,
Um cavaleiro grande e sublimado.
Cai-lhe o livro das mãos. Erguendo-o e beijando-o com fervor:
E contudo, alma infame e libertina,
Em teu horror, esquálido e sangrento,
Uma luz existiu, que era divina!
Uma luz existiu, que num momento
Fez o dia mais claro e mais jucundo,
Pôs mais cêrca da terra o firmamento!
Ó lira d'oiro que abalaste o mundo!
Sonho d'astros!… ó fúlgida epopeia!
Canta, dá vida nova ao moribundo!