Da cólera do Eterno a maré cheia,
Naus, barbacãs, palácios, de imprevisto
Levou tudo nas ondas, como areia…

Levou tudo nas ondas… ficou isto!
Ficou na mão exangue a lira d'oiro,
E é por ela existir que eu inda existo!…

Lira de Orfeu! meu único tesoiro!
Bem como a voz do mar enche uma gruta,
Encheu o azul teu canto imorredoiro!

Pudesse eu, d'alma livre e resoluta,
Olhos no fogo da manhã nascente,
Erguer ainda os braços para a luta!

Não, como outrora, para a luta ardente
Da riqueza e grandeza, que é vaidade…
Da fortuna, que é sombra que nos mente…

Seja a hora do prélio a Eternidade!
E o globo estreito a arena, onde não cansa
A batalha do Amor e da Verdade!

Cavaleiro de Deus, ergue-te e avança!
Põe na bigorna os cravos de Jesus;
Bate-os cantando… É o ferro da tua lança!

Faz a hástea da lança duma cruz;
Vai, cavaleiro, de viseira erguida,
Dá lançadas magnânimas de luz!…

E hão-de estrêlas sangrar de cada f'rida,
Que em rosários, ardendo, chorarão
Uma a uma no Gólgota da Vida.

Ah, sonho de esplendor, que sonho em vão!
Põe os olhos em ti, alma de hiena,
Em teu rebaixamento e escuridão!…