Como nascer em pútrida gangrêna,
Sob os olhos de Deus, a flor de encanto,
Vaso de ideal, a mística açucena!

Como? chorando; derretendo em pranto
As máculas do crime; e o criminoso,
Vestido de esplendor, ficará santo.

A Dôr, a eterna Dôr, eis o meu gôzo.
O pão do meu banquete, cinza escura,
E o meu vinho jovial, fel amargoso.

É a Dôr quem liberta a criatura:
Ou em miséria humana ande encarnada,
Ou em tigre feroz ou rocha dura.

Oh, abrasa-me a alma envenenada,
Faz em carvão meu coração perverso,
Dôr temerosa, Dôr idolatrada,

Ó Dôr, filha de Deus, mãe do universo!

Longo silêncio. Transe-lhe a alma, de repente, um frémito de
angústia. Adivinha no escuro, marchando, a Fatalidade inexorável.
Suor de Agonia. Com um ai cruciante:

A hora grande, a hora imensa,
Já por um fio está suspensa…
Não tarda muito que ela dê!…
Carne medrosa, porque tremes?…
Ó alma ansiosa, porque gemes?…
Porque?!…
Arde na Dôr, carne maldita!
Revive em Dôr, alma infinita!
Na Dôr bemdita espera e crê!…

Marcha de tropel, na escuridão, um bando de corsários, gigantes espadaúdos e membrudos, rosto sanguíneo, cabelos de oiro fulgurando. Entoam, epilépticos de alcool, uma canção infrene e vagabunda. Relampeiam as armas, à claridade vermelha dos archotes. O andar é deliberado e resoluto, como o de quem trilha, às escuras, uma vereda já sabida. É que na dianteira, a escaminhá-los, Iago e Judas trotam sombrios e ofegantes. Um dos marinheiros, brincando, meteu o Veneno no bôlso. Os cães, pelo instinto, levam a horda temerosa em direcção ao doido. Apenas o descobrem, estacam de súbito, ladrando raivosos e covardes, como a dizer:—Ei-lo! Aí o tendes.—O vélho herói, pálido de morte, fita-os soberanamente desdenhoso. Rodeiam-no, tumultuando e clamorando. Brilham adagas, lâminas frias de cutelos. Deitam-lhe algêmas, dão-lhe bofetões, insultam-no, mascarram-no de lôdo, cospem-lhe na cara. E a face do herói sobre-humanamente resplandece, como zurzida por estrêlas. Em meio de chufas e labéus o arrastam ao alto da montanha, onde a cruz negra e sanguinolenta lhe estende os braços para a Dôr. Com vilipêndio o desnudam, por escârnio lhe cingem uma tanga de cafre, e, a marteladas truculentas, desumanos o pregam no madeiro bárbaro. Ao tôpo da cruz, desenhada a sangue, esta ironia:—Portugal, rei do Oriente!—Expele o seio do mártir um ai agudo, lança angustiosa de varar infinitos. E a Dôr o exalta, a Dôr o diviniza: É de alabastro o corpo macerado, as longas barbas ondeantes de luar choroso, e os olhos fundos e proféticos, duas cavernas de noite, com estrêlas. Á volta, os verdugos tripudiam e cantam. Bôcas aguardentadas rugem blasfêmias e sarcasmos. Atiram-lhe pedras, que se convertem em rosas. Atiram-lhe estêrco, e chegam-lhe lírios e açucenas. Os cães, furibundos, pulam em vão, desaustinados, a ver se o mordem; e, insaciáveis, abocanham o toro do madeiro, lambendo ávidamente o sangue fresco a gotejar. Depois, escumantes de raiva, ladram à cruz, hienas possessas e diabólicas. Varreu a tormenta. A noite desmaia. Já os aventureiros, levando os cães, embarcam na galera. Os olhos do moribundo pairam em volta, suplicantes. Cemitério deserto. Ninguêm. Campos revoltos, carcavões tenebrosos, ossadas de penedias, um castelo derruído fumegando, esqueletos de gente em esqueletos de árvores, terra de pavor, terra de morte, onde a única vida, bruxoleante, é uma agonia numa cruz. Quási a expirar, soltando um gemido:

Pranto, que manas dos meus olhos,
Bemdito és!
Bemdito és, porque és o mar de pranto
Que os meus crimes verteram pelo mundo…
Sangue a correr das minhas f'ridas,
Bemdito és!
Bemdito és, porque és o mar de sangue
Do meu orgulho e minha iniquidade…