Súbito, numa visão interior, descobre em roda dele as nações armadas, cêrco de lôbos à volta duma presa. Já no estertor, agonizando:

Deus! abandonas-me!…

Expira. Clareia, roxa, a manhã de Novembro, triste lençol de misericórdia, a que limpassem forcas ou calvários. Um aldeão senil e vagabundo, caminha ao longe, trôpegamente, como um fantasma, em direcção à cruz. Rôto, cheio de lama e de sangue, no bordão aos ombros uma taleiga, e, escondida no peito, aninhada nos braços, uma criancinha forte e luminosa. Vélho e doente, perdeu-se de noite na debandada trágica, não alcançou o navio, já o não enxerga… onde irá êle!… onde irá êle!… Por montes e mares circundeia os olhos, enublados de horror, desorbitados de loucura… Ninguêm! ninguêm! ninguêm! Campos desertos, ondas sem uma vela, e nos bosques, mirrados, sem uma fôlha, carcassas pútridas… ninguêm!… Dum povo exilado ficára êle só, cadáver ambulante, espectro bisonho, a chorar num ermo, com o seu netinho nos braços. Aproximando-se da cruz, reconhece o doido, o estranho doido inofensivo, que a horas mortas vagueava, ululando, por cerros e quebradas, e a quem êle tantas vezes, benignamente, dera agasalho e dera pão. Quem o crucificou?!… Porque seria?!… Mete mêdo e respeito… Que estatura de homem!… que gigante!… Morto, semelha um Deus!… E, fronte descoberta,—Avé-Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco, bemdita sois vós entre as mulheres…—E os olhos da criança devoram a cruz, estrêlas inocentes, cheias de angústia e cheias de alma… Há naquele olhar uma inconsciência misteriosa, que adivinha… Luz enigmática, vem de longe, do fundo do passado, morrendo ao longe, em sonho, nas obscuridades do porvir… Esse vélho fantasma, com êsse menino ao colo, lembra a derradeira árvore dum bosque, árvore núa e carcomida, com uma florinha última no tronco. Flor de morte!… flor d'esp'rança!… Nasceu dum cadáver, e dela se hão-de gerar, talvez, os rumorosos bosques de àmanhã!… O aldeão, assombrado, meio louco, procura o castelo do rei… evaporou-se… já o não avista. Em frente, na montanha, só lavaredas e ruínas. Vai descendo, descendo, descendo, e lá ao fundo estaca de improviso, inclina-se, e vê no chão, abandonada, uma arma guerreira. É o montante de Nunalvares. Empolga-o a custo. Os braços da criancinha estendem-se com avidez, numa alegria doida… Nobre montante, qual o teu destino? Sulcarás, relha de arado, a gleba deserta dêsse camponês? Nas mãos dessa criança, um dia homem, brilharás acaso, espada de fogo e de justiça? Mistério… mistério… Invisivelmente, saùdando a luz, as cotovias gorgeiam…

FIM

ANOTAÇÕES

Balanço patriótico:

Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúsio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, bêsta de nora, agùentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalépsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, emfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional,—reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta;

Um clero português, desmoralizado e materialista, liberal e ateu, cujo vaticano é o ministério do reino, e cujos bispos e abades não são mais que a tradução em eclesiástico do fura-vidas que governa o distrito ou do fura-urnas que administra o concelho[1]; e, ao pé dêste clero indígena, um clero jesuítico, estrangeiro ou estrangeirado, exército de sombras, minando, enredando, absorvendo,—pelo púlpito, pela escola, pela oficina, pelo asilo, pelo convento e pelo confissionário,—fôrça superior, cosmopolita, invencível, adaptando-se com elasticidade inteligente a todos os meios e condições, desde a aldeola ínfima, onde berra pela bôca epiléptica do fradalhão milagreiro, até à rica sociedade elegante da capital, onde o jesuìtismo é um dandismo de sacristia, um beatério chic, Virgem do tom, Jesus de high-life, prédicas untuosas (monólogos ao divino por Coquelins de fralda) e em certos dias, na igreja da moda, a bonita missa encantadora,—luz discreta, flores de luxo, paramentos raros, cadeiras cómodas, latim primoroso, e hóstia glacée, com pistache, da melhor confeitaria de Paris;

Uma burguesia, cívica e políticamente corrupta até à medula, não discriminando já o bem do mal, sem palavra, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados (?) na vida íntima, descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira à falsificação, da violência ao roubo, donde provêm que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro[2];

Um exército que importa em 6.000 contos, não valendo 60 réis, como elemento de defesa e garantia autonómica;