O governo Francez (em nome da liberdade dos mares!!) favorecia desfaçadamente taes actos.
O caso occorrido com D. Pedro Castello Branco e com Francisco I de França, narrado por Couto, mostra bem as ideas d'este monarca sobre taes actos. D. Pedro roubado por corsarios francezes ao voltar da India, foi a França reclamar a sua fazenda. Francisco I não teve pejo de uzar á vista d'elle d'umas estribeiras e d'uns anneis pertencentes á fazenda que fôra roubada. D. Pedro á vista das negativas e despejo d'el-rei, o teve tambem de lhe dizer que aquellas estribeiras de que elle usara no dia anterior, e aquelles anneis que elle tinha nos dedos, os mandara elle D. Pedro fazer e eram fazenda sua.
Por estes meios foram os francezes, desde o começo das nossas navegações longiquas, senhores dos nossos roteiros, cartas e diarios maritimos, marinheiros e pilotos.
Como dissemos, o sr. Pierre Margry reconhece que João Affonso descrevera por observação propria, o que o mesmo João Affonso confessa nos extractos offerecidos por aquelle sr., o Mar Roxo, as costas do Malabar e de Malaca.
Ora, perguntaremos em boa consciencia ao sr. Pierre Margry, fez João Affonso esses exames n'aquelles mares e regiões ao serviço de França? O que o levaria ao Mar Roxo, onde os nossos capitães só então iam com fins puramente militares? Acaso já teria então o seu Governo vistas sobre o córte do Suez e a navigabilidade d'aquelle mar?!!
Quem lhe daria a audacia de examinar no serviço de França, as costas do Malabar e as de Malaca, então os logares mais frequentados pelos portuguezes?
Nós não hesitamos, nem comnosco os que tiveram alguma idéa da nossa dominação na India por aquelles tempos, em affirmar que as navegações de João Affonso por aquellas regiões só poderiam ter logar ao serviço do Portugal, sua patria, e nunca jamais ao de França, onde depois se lançou. Tão longa, minuciosa, feliz e então ignorada e não sabida navegação ao serviço de França é inadmissivel e insustentavel.
João Affonso foi um portuguez lançado em França; assás o temos demonstrado.
A historia vem ainda em auxilio da nossa argumentação, mas a historia irrefragavel.
Não é nenhum escriptor vaidoso das nossas glorias maritimas que se aproveitasse da sinceridade de Charlevoix, quem nol-o affirma. É, nem mais, nem menos, o nosso querido frei Luiz de Sousa, escriptor muito anterior a Charlevoix, quem nol-o diz nas seguintes palavras, fallando, em suas memorias e documentos para os Annaes de D. João III, ao anno de 1533. «Por carta de Elrey, de 3 de fevereiro de 1533, consta de um João Affonso que andava levantado com francezes; e que no mesmo tempo andava Duarte Coelho com armada na costa da Malagueta, e que el-rei lhe mandava que viesse a esperar as naus da India».