Ha uma indescritivel atonía
Nas vagas tintas que o sol-pôr produz,
—Como um grande soluço de agonía,
Que lentamente se tornasse em luz...
Andam no ar acentos vagabundos
De fados lacrimosos,
Como endeixas de poetas moribundos,
Ao luar, pelos êrmos lutuosos...
Olhai que tardes estas...
Tardes de outôno, tardes de agonía...
Vái dormir o carvalho das florestas
Para acordar um dia...
II
AOS ANJOS DA POESIA!..
Ó anjos da poesia, ó candidas beldades,
Irmãs dos querubins,—ó núncias do Céu,
Que me acenáis ao longe, ao fundo das edades,
Cantando heroicamente as velhas potestades
Nas cordas triunfáis da lira de Tirtêu,
E soluçando doces, místicas saudades
Nas cordas pastorís da citara de Orfêu...
Que outróra, celebrando os feitos dos guerreiros
Em versos festiváis, homéricos, divinos,
Andastes a cantar plos flóridos outeiros
Da Grecia sonhadôra, e á sombra dos loureiros,
Sentadas nos ilhêus dos golfos azulínos;
E andastes a gravar na casca dos olmeiros
Uns versos amorosos, brandos, pequeninos...
Que voastes para a Italia, e andastes com Virgilio
Por sobre o Mar-Egêu, á flôr das ondas lisas;
E chorastes com êle as lagrimas do exílio;
E lhe fechastes, morto, o veludíneo cilio
Daquele olhar, que viu tão largo sem balisas...
E assististes talvêz ao magico concilio
Das líricas vestáis, das virgens Pitonísas
Vós que inspirastes Tasso e o formidavel Dante,
Sentado a meditar ao pé das catedráis,
Levando-o pela mão a vêr a casta amante,
A cândida Beatriz, que deslisava hiante
Na trágica mudêz dos giros infernáis...
Falastes com Petrarca á réstea flutuante
Das noites de luar, das noites medieváis...
Que destes alma e vida aos versos de Camões,
O indómito guerreiro, o excélso trovadôr;
Que lhe inspirastes doces, trémulas canções,
Nas grutas orientais, nos êrmos, nas soidões,
—Canções cheias de fogo e trágicas de dôr;
Vós que haveis insuflado aos grandes corações
Os carmes da tragédia e os cânticos do amor...