Tendes olhos de vêr. Olhai...—Ao fundo,
Nas bôcas tenebrosas das cavernas,
Não vislumbráis um turbilhão imundo
De larvas, num grasnído gemebundo
Feito de raiva e maldições eternas?

—São os ladrões, ferozes valdevinos,
Cujo instinto são odios e sangueiras!
Alta noite, os seus olhos de assassinos
Fosforêjam bravíos, réptilínos,
Entre as sarças das velhas carvalheiras...

Pelas trevas, ao som dos temporáis,
Quando os ventos ululam nas florestas,
Vão agrupar-se ás portas dos casáis,
Afiando os mortíferos punháis,
Coçando-os pelas mãos nervosas, lestas...

—São tambem vagabundos,—os cigânos,
De barbaças intonsas e nojentas,
Esguedelhados, rôtos e marrânos,
De testa cancerosa envolta em pânos,
Escorrendo materias fedorentas...

Coitados! Em magótes pelas praças,
Para colher esmolas miseráveis,
Esbracêjam ridículas negaças
E rouquêjam exóticas chalaças,
Retorcendo as bocárras execráveis...

Pobres cigânos! De olhos estoirados,
Pernas pôdres e faces caboucádas,
Lá vão a correr mundo, atormentados,
De estômago vasío e pés pisados
Dos duros pedregulhos das estradas...

São inda as torturadas das rameiras,
As pobres raparigas sem pudôr,
Que se espojam nas frígidas lameiras,
Ao sol, á chuva, ás rijas ventaneiras,
Sem alma, sem destino, sem amor!

São míseros farrapos encharcados
No lôdo da torpêza vermináda!
Ah! homens, egoistas derrancados!
E ainda vos julgáis civilisados,
Ó luxuriosa, estupida manáda!

Não lastimáis as pobres meretrizes,
Que andam na lâma, a chafurdar de rôjo?
Chamái á dignidade as infelizes!

—Ó rapazes, tapêmos os narizes;
Sigâmos para cima. Isto faz nôjo!