Ao longe—vêdes?—os cavadôres,
Filhos do campo, filhos da leiva,
De olhos escuros e cismadores,
Olhos ingénuos de trovadôres...
—Cantam os campos, cantam as flores,
Cantam a seiva...

Por horas mortas (céu estrelado...)
Eles lá vão
Lavrar a terra, guiar o arado,
De olhar bondoso e resignado
Posto nos olhos do manso gado,
Posto no chão...

Vem as chuvádas, as inverneiras;
Rugem os rios, incham ribeiras;
Alagam campos, alagam leiras...
Vêde a desgraça!
Que ha-de êle fazer?—De olhar dorído,
Mal almoçádo, peor vestido,
Senta-se á porta, esmorecído,
A vêr quem passa...

Vem o calôr do sol doirado
Queimar-lhe o pão!
Que ha-de êle fazer, o desgraçado
Do lavradôr?—Vai pró eirado,
De aspéto triste, de olhar pasmado,
Cismar na vida, descorçoado,
Queixo na mão...

Estála a guerra; levam-lhe o filho.
Crescem os ratos, trincam-lhe o milho...
—Oh! forte praga de ratazânas!—
Branquêja a neve, ruge a nortada...
Lá vái a telha desmantelada
Das alpendrádas mais das choupânas!

Ouvide ainda maior desgraça...
Tinha uma filha,—que doce graça
De rapariga...
Nas largas noites, junto á fogueira,
Lume bemdito sobre a lareira,
Ela fiava (gentil fiandeira...)
O linho branco da sua estriga...

Até ao tardo cantar do galo
—Não imaginam,—era um regálo
O pái velhinho vê-la fiar...
Rufam chuveiros fortes lá fóra...
(Ai! Anjo Bento, Nossa Senhora
Seja c'os que andam a esta hora
Sobl'as aguas turbas do mar!)

Ela era a vida da sua vida;
Ela era o lume do seu olhar,
—Lume bemdito que n'alma brilha.
Como êle lhe queria—rôla querida
Nem temos nada que admirar,
Porque era filha...

Mas sucedêu que em certo dia
(Dia aziágo... Ele nem podia
Pensar em tal de olhos enxutos!)
Passou por lá um rapazão...
(Grande patife! Grande ladrão!)
Leva-lhe a sua consolação:
Rouba-lhe a filha, e em troca então
Deixou-lhe a dôr,—só dôr e lutos!

Malditos sejam os valdevinos
Que andam as jovens a desonrar!
Santos velhinhos, boas familias,
Guardái dos lobos as vossas filhas
Dentro do lar...