Vêde a desgraça enorme e crua
Do paciente do lavrador!
—Triste batalha!—
Que ha-de êle fazer? Que vida a sua!
Que ha-de êle fazer na sua dôr?!
O Pái-do-Céu o ajude e valha...
*
Bons lavradôres! Chorando ou rindo,
Dizem que vida assim não ha...
Vamos, rapazes, vamos subindo;
Deixái-os lá...
VII
OS MENDÍGOS
Sentados pelas orlas dos caminhos,
Olhái os lacrimosos pobresinhos...
Doentes, velhos, rôtos, corcovados,
Alforges para os hombros, resignados,
Pernas sêcas, cambáias, retorcídas,
Contando-se uns aos outros suas vidas,
—Olhái que inegualaveis odissêas...
Aquelas engelhadas caras feias,
Escaveirádas, sujas, com barbáça,
Contráem-se num rictus de desgraça
Riscado pelo dêdo da miseria...
Sob a abóbada azul, celeste, etéria,
Sem palacios, sem camas, sem pousadas,
Desde o sol-posto á luz das alvorádas,
Percorrem varias terras a pedir
Côdeas de pão...
Á noite vão dormir
Sobre a palha dos velhos alpendráis,
Juntamente cos ratos e os pardáis,
E cos escrofulosos canzarrões
(Expulsos da cosinha plos patrões)
Repartindo com êles das esmolas,
Que tiram lentamente das sacolas...
E comem de uma vêz jantar e ceia...
Ainda assim vós não fazeis idéa
Como êles são felizes, os mendigos...
No estio vão deitar-se pelos trigos,
De bandulhos pró ar, a meditar
Nas velhas aventuras, ao luar,
Dos tempos da bizárra mocidade,
De que inda têm uns restos de saudade...
Rastêjam pela terra as salamandras;
Chilreiam delambidas as calhandras,
Picando por alí o loiro grão...
Que pacífica, ideal consolação
A existencia dêles descuidada:
—Pedir, rezar, comer, dormir... Mais nada.
Tardes mornas...
As nuvens, pelo azul,
São flotilhas, que vogam para o sul,
Em demanda das Indias encantadas
Onde vivem serêias, silfos, fadas...