No outôno, passam líricas manhans
Ferrando os dentes pôdres nas maçans;
E em tardes murmurosas vão-se pôr
Nos êrmos, murmurando com fervôr
As perfumadas orações antigas
Ensinadas plas mães (pobres mendígas,
Que o bom Deus desde ha muito já lá tem...)
Oh! Nunca esquecem orações de mãe...

Chilrêiam cotovias nos valádos...
Nas largas noites invernais, coitados,
É que êles sofrem gêlos e frieiras!
Por horas mortas, quando as ventaneiras
Lhes fogem cos colmados das cabânas,
Abandonam a enxérga das choupânas,
E vão-se recostar pelos portais
Aonde o frio os mortifica mais!
O vento ulúla rouquidões e pragas...

Andam no ar escuridões preságas,
Que põem calafrios na espinha...
Maldita chuva!—Quanto mais se aninha
O pobresinho, mais se ensópa e alága!
Ó santa primavera, Deus te traga...

Primavera! Que tardes deleitosas
Andam no ar ondulações radiosas,
Exalações miríficas das flores...

Que perfusão esplendida de côres
E os pobres, pelas tardes perfumosas,
Corôam-se de mirtos e de rosas,
E atafulham de rosas a sacóla...
Santa abundancia, abençoada esmola
A tua, ó primavéra do Senhor...

—Alvorada de rosas e de amôr...

VIII

OS POETAS

Acima companheiros!
Alegres como airádas borbolêtas,
Visitêmos os pálidos poetas,
Que andam a cismar entre os loureiros...

Seu vulto aos céus se alteia...
Vêde-os, rapazes, vêde-os...—São aquêles
De olhar ardente!—Vêde-os, como êles
Trazem nos olhos o clarão da idéa!