Este mal,—esta dôr, este martirio,
Pertence essencialmente ao coração
Como pertence ás pétalas do lirio
Aquela côr tão linda de paixão...

Porem não acreditam, e pretendem
Que o homem, de nascença, é imaculádo
Como as viçosas pétalas, que estendem
As açucênas para o sol doirádo...

E assim andam tentando realisar
Cá sobre a terra a plêna felicidade,
Pondo o homem na peânha dum altar,
Fazendo dêle uma áuto-divindade...

E o mundo, no mais vil materialismo,
Desfaz-se numa infanda corrução,
E, guiado pela rédea do Egoismo,
Precipíta-se no fundo dum abismo
Onde arde um cataclismo,
Onde rouquêja a fulva sedição!

E passa á flor das coisas a gemer
—Qual bocêjo de quem acórda tarde—
O tédio geniál de Schopenhauer,
O imenso pessimismo de Leopárdi...

De olhos profundos, a fitar o chão,
Esfíngicos como índicos teósofos,
Olhái os cismadôres da soidão,
Em filosófica meditação...

Coitados dos filósofos!

XVI

FIGURAS ANTIGAS

Mais dois passos acima, só dois passos,
E atingirêmos a região querida
Onde palpita já, sob os espaços,
A luz da eterna vida...