De olhos profundos, a fitar o chão,
E quêdos, quais bramânicos teósofos,
Ha uns vultos alí, na solidão,
Imersos em letál meditação...
Olhai,—são os filosophos.

Os rostos sêcos, magros de cismar,
Cobrem-nos sórdidas barbáças feias;
Vê-se nos olhos fúlgidos brilhar
O fogo das idéas...

Pla estrada da nevoenta antiguidade
Vem já de muito longe essa legião,
Escoadrinhando com sofreguidão
O rastro da Verdade...

No céu da Grecia antiga,—azul, profundo,
Cintíla com olímpico clarão
A triade infindavel da Razão,
Iluminando os ângulos do mundo:

—Aristóteles, Sócrates, Platão...

Esses genios enormes, admiraveis,
Esses homens de fundos olhos virgens,
Empregáram esforços formidáveis
Por descobir os Fins mais as Origens...

E algo êles fizeram com efeito:
—Legáram-nos a nós muitas verdades,
Como grânulos de oiro imperfeito,
Refulgindo na noite das Edades...

Nêsse tempo, porem, não viéra ainda
Do misterioso Empireo esse clarão
Pedido tantas vêzes por Platão:
—A voz de Deus com a Verdade infinda
Que rompesse as calígens da Razão...

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Olháe-os hoje ainda...—Olhos erráticos,
Fitos não sei em que visões distantes,
Parecem velhos ermitães lunáticos,
Leitôres de alfarrábios esquipáticos,
Sepultos na poeira das estantes...

Surge agora a grandíssima questão,
Que êles (coitados...) querem resolver
Depressa, quanto antes,—bem ou mal...
É a questão do nosso coração,
Dêste vago e nostálgico sofrêr
Que êles designam Dôr Universal...