Convíve cos fantasmas vagabundos,
Entre as sombras dos altos carvalháis...
Por isso sabe os misterios profundos
Dos sombríos destinos dos mortáis...
E ha quem o visse, em horas tormentosas,
Ao lívido clarão das trovoádas,
Sentado sobre as rochas alterosas,
De longas cabeleiras desgrenhádas...
Vái passear de noite ao cemitério
A trautear umas toadas lentas,
Como se um velho vínculo funério
O prendesse ás ossádas fedorentas...
Se acáso os sinos dobram a defuntos,
O doido rompe em fundo soluçar,
Resmungando nuns místicos assuntos,
Que acabam num raivoso praguejar.
É amigo dos bichos e das rosas...
De manhã vái colhê-las orvalhadas,
E ajunta-as num monte, ás chapeládas,
Como se fossem pedras preciosas...
Como vêdes, seu rosto é negro, horrífico!
No verão, quando o sol arde nas ladeiras,
Vai-se deitar nas cálidas torreiras,
E adormece num sôno beatífico...
Para fugir aos negros manicómios,
Esconde-se nos humidos esgôtos;
Se tem fome, procura gafanhôtos,
Apanha-os e cóme-os...
XV
OS FILÓSOFOS
É tempo de seguirmos para cima,
Rapazes; vamos lá:
Que o tempo é um tesôiro que se estima,
Pois é pra isso que o bom Deus o dá.