Chorái, estrelas cadentes
Como lágrimas de luz...
Chorái, ó aguas correntes...
XIV
O DOIDO
Olhái ao longe os hervaçáis distantes,
Vereis uma figura desvairáda,
Esbracejando rábida na estrada
Com maneiras sinistras, delirantes...
É um louco enrodilhádo em panos rôtos,
Que anda por aí fugído aos manicómios:
Tem fome; vái, por isso, aos gafanhôtos,
E, se os encontra, apânha-os e cóme-os.
Irôso, magro, sujo, esguedelhádo,
Passando a urrar por entre as oliveiras,
É a relíquia talvêz dum revoltado,
Que prégou sedições pelas ladeiras...
Vêde-o... De olhos bravios e sangrentos,
De mão crispáda para os céus erguída,
—É bem a sombra trágica da vida,
Que vaga pelo mundo, a passos lentos...
Quando na râma ulúlam ventaneiras,
E a chuva tamboríla nas vidráças,
Passeia, em noite escura, plas ladeiras,
Profetisando trágicas desgráças...
Vagueia pelo campo, a horas-mortas,
E a adormece nas encruzilhádas,
Quando os sapos, de negras pernas tortas,
Rastêjam pelas rosas orvalhadas...