Ó aguas do Jordão, aguas sagradas,
Que roláis sobre a areia, léz-a-léz,
Suspirando umas místicas baládas
Do tempo de Moisés...

—Ó coisas orientáis...
Ó brancas pombas que arroláis tão bem,
Ó hôrtos, ó jardins, ó oliváis,
Ó lirios de Belem!

Eu quero ouvir as lástimas antigas
Dos Juizes, dos Reis mais dos Profétas
De longas barbas brancas como estrigas,
De olhos pisados, roxos quáis violêtas...

Contái-me essas antigas penitencias,
Essas heróicas orações estrânhas,
Que murmuravam sobre as eminencias
Das ásperas montânhas...

Cantái-me as melopeias contristádas
Das cândidas mulheres bibliáis,
Quando iam, ao clarão das alvorádas,
Prá ceifa dos trigáis...

Falái-me dessa Virgem toda luz,
Da mística alegria dessa Mãe,
Quando em seus braços recebêu Jesus
Na Lápa de Belém...

Falái-me dos grosseiros sacerdótes,
Dos magros e barbudos Farisêus,
E desse esgrouviádo Escariotes,
Que ousôu traír um Deus!

Falái-me de Jesus e seus martírios,
Do seu ultimo gesto de perdão,
Ó aguas do Jordão,
Ó urzes do Calvário, ó roxos lirios...

XVIII

AO PE DA LUZ