Eles, que espedaçaram a Cruz e cuspiram ás faces pálidas do Martir do Calvario o escarro de mil insultos,—cantaram ditirâmbos á Sciencia e beijaram á Razão as pernas fuliginosas das barricadas rebéis. E são êles que proclâmam hoje a realidade da Dôr,—da Dôr condição da vida, sem uma estrêla a fulgir na noite do nosso destino...
«Para qualquer lado que o nosso olhar se dirija,—escreve um revoltado, o radical Sebastião Faure,—não se encontra senão dôr... O sofrimento está em toda a parte, visita o castélo assim como a cabâna, mas apresenta-se sob aspectos que se transformam constantemente, e, atravéz de incessantes migrações, metamorfosêa-se até ao infinito. A vida não passa de um longo martirio, desde o primeiro vagído da criança até ao ultimo suspiro do moribundo. O tormento prende o berço ao tumulo. A alegria de viver não é mais do que uma frase... Um aborrecimento enorme se apossou da humanidade. O furioso aquilão curva todas as arvores da floresta, desde o carvalho ao canaviál. Da mesma sorte sopra sobre a terra desolada um misto de miseria material, intelectual e moral, que faz inclinar todas as cabêças,—a dos grandes como a dos pequênos, a dos poderosos como a dos fracos, as frontes altivas como as humildes. O martelo do sofrimento, sem nunca parar, esmaga gerações; o cancro da Dôr alastra sobre a Humanidade as suas chagas horriveis.» (Sebastião Faure—A Dôr Universal).
Estas palavras, rapazes, são dum atêu, dum revoltado. Exprimem perfeitamente, numa cruel amargura, o desalento completo da orgulhosa Razão em face dos sofrimentos da mísera Humanidade. São os homens da Desordem vencidos perante a Dôr.
Pois bem, Seminaristas! Nós,—os filhos da Ordem, os homens brandos da Paz,—somos chamados a derramar nesse cancro universal a luz divina da esperança.
Sabemos de ha muito tempo, antes que os negativistas o proclamassem desesperadamente, angustiosamente, sabemos de ha muito tempo,—porque o Evangelho o diz,—que «a felicidade não é dêste mundo.» Mas sabemos tambem que na alma da Humanidade soará perenemente a musica celeste daquela amoravel promessa de Jesus:—«Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados.»
Na verdade, a Humanidade atravessa um estadio doloroso, trágico. Nuvens densas escurecem o céu, e as almas confrangem-se numa penumbra abafadiça, soturna. Esta penumbra é rasgada, a espaços, por clarões lívidos, deslumbrantes, que estonteiam e cegam. Estes lívidos clarões são as cintílas da Sciencia.
Mas estes clarões não bastam. Precisâmos de mais luz,—de luz serêna, benéfica,—para as almas amarguradas.
Acima destas nuvens cortadas dos relampagos das idéas, sacudidas pelo trovão das revoltas,—ha um espaço mais serêno, com horisontes mais largos, com claridades mais vivas, mais serenas, mais tranquilas. Nós querêmos esse espaço, buscâmos esse horisonte, desejâmos essa luz...
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«Amai-vos uns aos outros como irmãos...»—Foi este o preceito novo, que Jesus impôz aos seus discipulos.