1531.
El-Rei divide o Brasil em Capitanias hereditarias; as quaes distribue por pessoas benemeritas por seus serviços com a obrigação de povoal-as afim de obstar ás invasões estrangeiras, e aos ataques dos Indigenas.--Martim Affonso de Sousa, primeiro Donatario, chega a Pernambuco e dirige-se para o sul: entra na Bahia de Nicterohy ou Rio de Janeiro a 30 de Abril (posto que alguns Escriptores dizem ter sido ao 1.º de Janeiro de 1532, e outros ao 1.º de Janeiro de 1531. Nós porém seguimos neste ponto o Diario da Navegação de Pero Lopes, onde se pode ver a observação que faz Varnaghen a esta questão): corre ao S., e chega até o Rio da Prata. Não encontrando pela costa estabelecimento algum Hespanhol ou estrangeiro, faz-se de volta á sua Capitania.
1532.
Entra Martim Affonso na Bahia de S. Vicente na Capitania do mesmo nome (22 de Janeiro), e ahi funda elle a primeira povoação de alguma importancia no Brasil, que denomina S. Vicente. (Outros escriptores dizem ter Martim Affonso entrado no porto de Santos e depois disto fundado ao S. desta Bahia a colonia de S. Vicente. Porém abandonando esta opinião por menos bem fundada, seguimos inteiramente a relação de Pero Lopes, já tantas vezes citada). Brilhante foi a sua administração. Por meio de João Ramalho conseguio a alliança do celebre Indio Tebyriçá; e em paz com os Indigenas, só cuidou na prosperidade da colonia, introduzio as criações muares, a canna de assucar, etc.
1534.
Pero Lopes de Sousa, irmão de Martim Affonso, tendo obtido a Capitania de S. Amaro encravada na de S. Vicente, consegue fundar huma pequena colonia, não sem bastante resistencia dos Indigenas.--A Pero de Goes coube a Capitania da Parahyba do Sul; e tendo della tomado posse neste anno, vê-se obrigado a abandonal-a dentro em pouco tempo.--A Vasco Fernandes Coutinho coube a Capitania do Espirito Santo: consegue estabelecer-se nas immediações do lugar onde desembarcou Cabral, e aldêar os Indios Tupininquins ahi existentes.--A Jorge de Figueiredo Corrêa foi dada a Capitania dos Ilhéos; e a Pero do Campo Toyrinho a de Porto-Seguro. Ambas estas Capitanias florecerão dentro em pouco tempo, chegando até a de Porto-Seguro a exportar grande quantidade de assucar.
1535.
Tendo sido dada a Duarte Coelho Pereira a Capitania de Pernambuco, chega elle ao seu destino, trazendo em sua companhia grande numero de familias: e depois de expellir os temiveis Cahetés, lança os fundamentos da cidade de Olinda. Na expulsão dos Cahetés muito o auxiliárão os Indios Tabyra, Hagybe (braço de ferro), e Piragyhe (braço de peixe).--Ao celebre historiador João de Barros fôra dada a Capitania do Maranhão. Porém não lhe sendo possivel tratar immediatamente de povoar e colonisar a Capitania, cedeo-a em favor de Luiz de Mello, ao qual succede a desgraça de naufragar nos baixios do Maranhão.--A Francisco Pereira Coutinho coube a Capitania da Bahia de Todos os Santos; e chega a seu destino neste anno. (Afóra as 9 capitanias que temos mencionado, devemos ás minuciosissimas investigações do Sr. Varnaghen o conhecimento de mais 3, cujos Donatarios foram Ayres da Cunha, Fernão Alvares de Almada, e Antonio Cardoso de Barros, perfazendo assim o numero de 12, em que diz Barros fôra dividido o Brasil).
1535--1548.
Tendo sido mal succedido Luiz de Mello na Capitania do Maranhão, é João de Barros reintegrado nos seus direitos a essa Capitania. Faz elle uma sociedade com Fernão Alvares de Andrade, e Ayres da Cunha para a colonisação da Capitania. Sahe com effeito huma expedição ao mando de Ayres da Cunha; porém teve nos mesmos baixios do Maranhão o mesmo desastroso fim de Luiz de Mello (1536).--Tambem na sua Capitania he infeliz Francisco Pereira Coutinho, mas por culpa sua. E com effeito, em lugar de tratar brandamente os Indios e de procurar sua amizade e alliança, fez-lhes guerra de exterminio, chegando até a apossar-se dolosamente de Diogo Alvares Corrêa o Caramurú. A famosa Paraguassú, esposa de Caramurú, excita os Tupinambás á vingança, e obriga Coutinho a fugir. Feita porém a paz, voltava este á Bahia, quando huma furiosa tempestade o fez naufragar em Itaparíca (1548). Os que escaparão do naufragio morrerão ás mãos dos Indigenas; entre elles o proprio Coutinho: só forão poupados Caramurú, e sua comitiva.