No Brazil começa a revolução pelo Pará em 1.º de Janeiro, sendo demitido o Governador Conde de Villa-Flôr, que he substituido por huma Junta Provisoria: he enviado Domingos Simões da Cunha a congratular as Côrtes Constituintes, já installadas em Lisboa.--Imita a Bahia o exemplo do Pará e adhere á revolução de Portugal (10 de Fevereiro). O Conde de Palma, então Governador, rejeita a presidencia da Junta Provisoria ahi installada.--Seguio-se Pernambuco, onde tudo se fez pacificamente, porque o Governador Luiz do Rego Barreto transigio com o espirito revolucionario, e por huma proclamação adherio ao movimento politico.--No Rio de Janeiro, apenas se soube destes factos, formou-se huma sociedade para fazer com que a tropa, reunida no largo do Rocio por meio de avisos secretos, adherisse ao movimento geral. Porém o Principe D. Pedro, sabendo deste plano, chega ao largo do Rocio (26 de Fevereiro), e subindo ao terraço do theatro de S. João (hoje de S. Pedro) lê o Decreto (24 de Fevereiro) pelo qual El-Rei approvava a Constituição que fizessem as côrtes em Portugal. Em consequencia prestarão todos juramento, e tudo terminou pacificamente por vivas e acclamações.--Pouco depois deste successo hum Decreto (2 de Março) concedeo liberdade de imprensa, porém com restricções.--No entanto a presença do Rei em Portugal tornava-se indispensavel pelo espirito e caracter que ia tomando a revolução. Por isso o Decr. de 7 de Março deixa no Brazil o Principe D. Pedro, encarregado do Governo Provisorio; e manda proceder á eleição dos Deputados Brazileiros á Constituinte em Lisboa na fórma de outro Decreto de identica data.--Tendo-se pois de proceder á eleição dos Deputados no Rio de Janeiro sob a presidencia de Joaquim José de Queiroz, reunidos os Eleitores na Praça do Commercio, e tambem grande concurso de povo (a maior parte occultamente armado), levanta-se de repente grande vozería pedindo que fosse acclamada a Constituição Hespanhola. Huma deputação leva ao Rei este pedido, que he approvado por hum Decreto (21 de Abril). Porém, sabendo-se que El-Rei quer partir, manda a Junta ordem ás fortalezas para o impedirem de sahir. Augmentando de mais em mais o tumulto no Collegio Eleitoral, he cercado o edificio pelas tropas que fazem fogo sobre os cidadãos, de que resultarão algumas mortes e ferimentos.--No dia seguinte (22 de Abril) revoga El-Rei o Decreto que adoptava a Constituição Hespanhola.--E no dia 26 de Abril levanta ancora para Portugal, deixando no Brazil como Regente e seu Lugar-Tenente com amplos poderes seu filho D. Pedro.--Por este mesmo tempo houve em Santos hum motim militar por falta de pagamento; Lazaro José Gonçalves desce de S. Paulo e restabelece a ordem e tranquillidade.--Neste mesmo anno o Decreto de 6 de Fevereiro manda criar a Relação de Pernambuco.
1821.
He Regente do Brazil o Principe D. Pedro.--Em 5 de Junho tem lugar no Rio de Janeiro huma revolução, cujos resultados forão a expulsão do Conde dos Arcos, a criação de huma Junta Provisoria, e o juramento das bases da Constituição.--No entanto em Montevidéo grande questão se debatia, qual era--si devia esse Estado conservar-se independente sobre si, apezar de fraco; ou si reunir-se á Confederação do Rio da Prata; ou si ao Brazil.--Foi abraçado o ultimo partido; e a 31 de Julho declarou-se a incorporação voluntaria de Montevidéo ao Brazil, sob certas condições, debaixo do nome de Provincia Cisplatina. (De sorte que por este facto estendia-se o Brazil nesta época até o Rio da Prata).--Em quanto isto se passa no Sul, he o Norte ameaçado de tremenda borrasca. Em 29 de Agosto rebenta em Goyana (Pernambuco) hum movimento revolucionario. Não querendo os revoltosos annuir ás proposições pacificas da Junta Governativa do Recife, resolvem-se atacar Olinda e a capital; porém são repellidos. Finalmente a convenção de Biberibe (9 de Outubro) restabelece a ordem. O General Luiz do Rego, que combatêra os revoltosos, depois de haver capitulado em Olinda retira-se para Portugal.--Em Portugal as Côrtes de Lisboa mostrão vistas menos favoraveis ao Brazil, apezar da opposição dos Deputados Brazileiros, cuja voz se torna inutil pela superioridade numerica dos contrarios. Decretão pois a criação de Juntas Governativas em todas as Provincias; a extincção dos Tribunaes Brazileiros; e chamão á Europa o Principe Real D. Pedro sob pretexto de instruir-se viajando.--O Norte e Sul do Estado seguem partidos diversos. Em quanto aquelle recusa obediencia ao Principe, faz o povo no Rio de Janeiro, impellido por José Joaquim da Rocha hum requerimento á Camara Municipal afim de ir pedir ao Principe a graça de demorar a sua partida. Quasi ao mesmo tempo chegão (fins deste anno) de S. Paulo huma energica representação, agenciada por José Bonifacio de Andrada e Silva; e outra da villa de Barbacena em Minas-Geraes por Paulo Barbosa da Silva contra as determinações do Congresso de Lisboa.
1822.
O Principe Regente D. Pedro attendendo a todas as reclamações dos povos delibera-se a ficar no Brazil (9 de Janeiro); e assim o declara ao Presidente da Camara Municipal da capital José Clemente Pereira, encarregado da mensagem.--No entanto em Minas Geraes o partido das Côrtes, representado principalmente por José Maria Pinto Peixoto, e Cassiano Spiridião de Mello e Mattos recusava obedecer ao Principe. Em consequencia resolve este fazer entrar tudo na ordem indo pessoalmente a Minas. A 25 de Março sahe elle do Rio de Janeiro, acompanhado de mui poucas pessoas, e em breves dias achava-se em Ouro Preto. Depois de apaziguar tudo com sua presença e de restabelecer a ordem fazendo sahir da Provincia os resistentes, volta á côrte, onde chega a 25 de Abril.--De volta ao Rio de Janeiro offerece-lhe a Camara desta cidade o titulo e cargo de Defensor Perpetuo do Brazil, que he acceito (13 de Maio).--Havendo o Decreto de 16 de Fevereiro criado hum Conselho de Procuradores das Provincias do Brazil, installa-se este no dia 2 de Junho.--E tendo a Camara do Rio de Janeiro pedido no dia 20 de Maio a convocação de huma Assembléa Constituinte e Legislativa para o Brazil, o Decreto de 3 de Junho a convoca.--No entanto certas desavenças em S. Paulo, ameaçando a paz e tranquillidade publica, exigem a presença do Principe, que para lá parte no dia 14 de Agosto.