1822.

Nos campos do Ypiranga em S. Paulo recebe o Principe D. Pedro Decretos da côrte de Lisboa, ordenando-lhe terminantemente que se retirasse para a Europa, e dando por nullos e irritos todos os actos feitos a pedido dos povos. Immediatamente calcando aos pés semelhantes Decretos, levanta o grito--Independencia ou Morte--(7 de Setembro) que retumbou das margens do Ypiranga até o Amazonas e Prata.--Restabelecida a ordem em S. Paulo, volta á côrte onde chega no dia 15 de Setembro.--A 12 de Outubro he acclamado Imperador Constitucional e Defensor Perpetuo do Brazil.--E a 1.º de Dezembro sagrado e coroado; criando neste mesmo dia a Imperial Ordem do Cruzeiro do Sul. (Fica pois emancipado o Brazil, e constituido Imperio sob o governo de seu magnanimo fundador D. Pedro I.--D'aqui começa a sua existencia politica como Nação livre e independente. E em pouco mais de 20 annos tem caminhado com passos gigantescos na estrada da civilisação, apezar das graves commoções intestinas que constantemente o perseguem retardando o seu progresso estupendo).

1823.

Os Deputados Brazileiros á Constituinte Portugueza, não tendo podido alcançar das Côrtes cousa alguma em favor do Brazil, conseguem evadir-se de Lisboa, e chegão á sua patria.--Convocada a Assembléa Constituinte Brazileira, e feita a eleição, he ella aberta no dia 3 de Maio.--No entanto a rivalidade dos Generaes Ignacio Luiz Madeira de Mello e Manoel Pedro de Freitas Guimarães na Bahia havia dado lugar a graves desordens, por isso que ambos querião o commando geral das tropas, o primeiro fundado na sua nomeação official, e o segundo na nomeação popular; além de que a noticia da independencia já lá havia chegado, e a Bahia não queria em seu seio tropas Portuguezas, e muito menos hum Chefe Portuguez. O General Pedro Labatut he enviado á Bahia, auxiliando-o ao mesmo tempo huma esquadrilha ás ordens do Almirante Lord Cockrane. Porém Labatut foi exonerado desta commissão, e substituido por José Joaquim de Lima e Silva, que obriga Madeira a capitular. No dia 2 de Julho os Portuguezes evacuão a Bahia; a qual adhere á independencia.--Pernambuco já havia adherido á independencia, não sem ter soffrido graves desordens provenientes da insubordinação da tropa.--Porém o Piauhy, Maranhão, e Pará resistem á independencia.--No Piauhy João José da Cunha Fidié quer sustentar as Côrtes Portuguezas; mas os Cearenses conduzidos por José Pereira Filgueiras invadem o Piauhy e obrigão Fidié a retirar-se.--No Maranhão José Felix Pereira de Burgos bate os resistentes em Itapicurúmirim: e com a apparição da esquadra de Cockrane he restabelecida a paz e jurada a independencia.--No Pará o General José Maria de Moura quer resistir; porém do Maranhão he destacado por Cockrane hum vaso ao mando de João Pascoé Greenffel para obrigar o Pará a reconhecer a independencia: com effeito assim succede, sendo preso e remettido para Lisboa o General Moura. Porém a excessiva alegria do povo ia degenerando em anarchia, tendo lugar graves desordens: Greenffel desembarca com alguma tropa e restabelece a tranquillidade, aprisionando os revoltosos e desordeiros; e não havendo em terra prisão segura, lança no porão do seu navio mais de 300 presos; e fazendo elles motim, manda disparar alguns tiros para contel-os: no dia seguinte amanhecem quasi todos asphyxiados!--Voltando ao Sul do Imperio, hum facto grave se passava no Rio de Janeiro. O Imperador reconhecendo vistas ultra-constitucionaes em alguns dos Deputados, dissolve a Assembléa Constituinte (Decreto de 12 de Novembro), e deporta alguns de seus membros (entre os quaes o Patriarcha de nossa independencia José Bonifacio de Andrada, e seus dous irmãos Antonio Carlos e Martim Francisco).--No extremo Sul do Imperio o Barão da Laguna, declarando-se a favor da independencia quer obrigar Montevidéo a adherir a este movimento; porém o General D. Alvaro resiste, até que capitúla em 18 de Novembro, depois de hum longo assédio.--Tendo-se dissolvido a Constituinte e promettido o Imperador huma Constituição aos povos, o Decreto de 26 de Novembro nomea huma commissão especial de 10 membros para a redacção de semelhante Codigo Politico.--Já era apparecida a L. 20 de Outubro, declarando qual a legislação vigente no Brazil: e mandou-se que se observasse a mesma que até então vigorava, a saber, o Codigo Philippino e demais leis extravagantes promulgadas até o dia 25 de Abril de 1821, todas as promulgadas pelo Principe D. Pedro como Regente e Imperador, e algumas leis da Constituinte posteriores áquella data, especificadas na tabella annexa á dita Lei. (Esta legislação tem sido muito alterada por leis nossas modernas; apontaremos as modificações mais profundas).

1824.

Redigida a Constituição pela commissão para isso nomeada; he ella offerecida aos povos pelo Imperador e jurada no dia 25 de Março. Por ella se estabeleceu o governo Monarchico Hereditario Constitucional Representativo no Brazil; e se consolidou assim a unica Monarchia existente na America. Forão seus Redactores João Severiano Maciel da Costa (Marquez de Quéluz); Luiz José de Carvalho e Mello (Visconde da Cachoeira); Clemente Ferreira França (Marquez de Nazareth); Mariano José Pereira da Fonseca (Marquez de Maricá); João Gomes da Silveira Mendonça (Visconde do Fanado e Marquez do Sabará);--Francísco Villela Barbosa (Marquez de Paranaguá); Barão de Santo Amaro (Marquez do mesmo titulo); Antonio Luiz Pereira da Cunha (Marquez de Inhambupe); Manoel Jacintho Nogueira da Gama (Marquez de Baependy); e José Joaquim Carneiro de Campos (Marquez de Caravellas).--Em Pernambuco as idéas mal extinctas da revolução de 1817 são renovadas pelos escriptos incendiarios de Cypriano José Barata de Almeida. Em consequencia Manoel de Carvalho Paes de Andrade proclama nesta Provincia o governo Republicano (24 de Julho) e convida as demais Provincias do Norte a ligarem-se a Pernambuco e constituirem a Republica ou Confederação do Equador. No Ceará foi este convite acceito por Tristão Gonçalves de Alencar Araripe e José Pereira Filgueiras; porém o povo não quiz adherir a semelhante movimento. Do Rio de Janeiro he enviado a Pernambuco o Brigadeiro Francisco de Lima e Silva. Desembarca este nas Alagôas; e, aconselhado pelo engenheiro Conrado Jacob de Niemeyer toma de sorpreza o Recife (12 de Setembro); e tendo batido os insurgentes em Boa-Vista ajudado pela esquadra de Cockrane, havendo fugido Paes de Andrade para bordo de hum vaso Inglez, e os revoltosos abandonado Olinda e Recife, são estes dous pontos definitivamente occupados pelo Brigadeiro Lima em 17 de Setembro. Assim restabelece-se a paz, sendo alguns dos insurgentes condemnados á morte e executados (entre outros o celebre João Guilherme Recktliff, homem de luzes e sentimentos).--He preso na Bahia e cobardemente assassinado pela escolta que o conduzia o General Felisberto Gomes Caldeira (25 de Outubro).--Horrivel secca lavra pelo Norte, sobretudo no Ceará, summamente sujeito a ellas pelos seus grandes desertos arenosos.

1825.

A nossa independencia he reconhecida por Portugal em virtude da convenção de 29 de Agosto.--Nova guerra vae suscitar-se no Sul do Imperio, e começar assim a 3.ª e ultima campanha. Hum partido, a cuja frente se achava Fructuoso Rivera em Montevidéo deseja separal-o do Brazil. Com effeito Rivera começa a revolução, sahindo de Montevidéo e pondo-lhe cerco. Pouco depois se lhe reune D. João Antonio Lavalleja, que salta no Porto das Vaccas em 19 de Abril. A 14 de Junho estabelecem hum Governo Provisorio na Villa de la Florida; e a 20 de Agosto installa-se sua primeira Camara Legislativa que declara irritos e nullos todos os actos de incorporação ao Brazil.--Commandava nossas forças terrestres o Visconde da Laguna; porém achavão-se ellas muito diminuidas pela retirada de algumas divisões destacadas para diversos pontos do Imperio afim de nelles restabelecer e conservar a ordem e tranquillidade.--Conhecendo Buenos-Ayres nossa fraqueza declara-nos a guerra, e liga-se ao partido Republicano em Montevidéo.--Bento Manoel Ribeiro, fascinado pela honra do commando e ávido de gloria militar trava combate com Lavalleja; e faz-nos pela sua imprudencia e temeridade perder a batalha de Sarandi (12 de Outubro).--Nas aguas do Prata porém a nossa esquadra commandada por Pedro Antonio Nunes leva vantagem á do Almirante Guilherme Brown.--Novos reforços partem do Rio de Janeiro.--O Congresso decreta a incorporação de Montevidéo á Republica unida do Rio da Prata, e assim o communica ao Gabinete do Brazil em nota de 4 de Novembro.--O Brazil declara a guerra a Buenos-Ayres e expende as suas razões no manifesto de 10 de Dezembro.--Tem lugar no Rio de Janeiro o nascimento do Principe D. Pedro (2 de Dezembro).

1826.

Celebra-se com a França (8 de Janeiro) hum tratado perpetuo de amizade e garantias.--Celebra-se com a Inglaterra hum tratado (23 de Novembro) para abolição do trafico de escravos, e nomeação de commissões mixtas em tudo e por tudo como o de 28 de Julho de 1817.--As continuas desordens na Bahia levão o Imperador a ir pessoalmente apazigual-as: com effeito parte da côrte a 3 de Fevereiro e a 27 do mesmo mez lá se achava: restabelecida a ordem, volta á côrte, onde chega no dia 1.º de Abril.--Por morte de D. João VI. em Portugal (10 de Março), sendo chamado a succeder-lhe seu filho D. Pedro IV. (Pedro I. do Brazil) abdíca este a corôa em sua filha D. Maria da Gloria (3 de Maio), hoje Rainha de Portugal D. Maria II.--Abre-se no Rio de Janeiro a 1.ª Assembléa Legislativa do Brazil (3 de Maio).--Continúa a campanha do Sul. Rodrigo Pinto Guedes toma o commando da esquadra Brazileira (11 de Maio). Atacando Lavalleja a Colonia do Sacramento, he repellido pela brava guarnição ao mando do habil General Manoel Jorge Rodrigues; assim como pouco depois tambem succede o mesmo a D. Manoel Oribe. Ao mesmo tempo Frederico Mariath obsta ao ataque da colonia por huma esquadrilha inimiga. O Imperador parte para o Sul afim de dirigir elle proprio a guerra contra os Argentinos (24 de Novembro).--Durante a sua ausencia fallece na côrte a Imperatriz D. Leopoldina (11 de Dezembro).--O Dec. de 16 de Abril cria a Ordem de Pedro I.