Terminada a refeição e dispostos os enfeites, começou o trabalho das mulheres e dos homens que não entravam na caça desse dia. Ah desde o sílex de Thenay[[7]], desde o taciturno antropopiteco, agora que no seio da fauna ia surgir o antepassado cheleano, quantas fronteiras ultrapassadas, dentro do universo cerebral!—divisão do trabalho, tradição de utensílios, soberania da natureza, organismo multiplicador das forças humanas, esboços artísticos...
Com delicada agulha, muitos cosiam pelicas, depois de abrir nelas pequenos orifícios com um punção de pedra; outros, com polidor e raspadeiras trabalhavam em peles frescas; alguns, em bancos de pedra ou de madeira, ao ar livre, martelavam, afiavam as machadas,[{16}] as facas, as serras, os burís. O corte, fazendo saltar pequenas estilhas, e feito com uma destreza e paciência admiráveis, deixava aparecer, lentamente, as lâminas e as pontas, e mui raramente o artista deixava de descobrir as direcções convenientes à percussão, familiarizado com a matéria, dotado da previsão que se adquire com a longa prática. Tarefa mais delicada ainda, contornavam outros as pontas, os anzóis, os arpéus de osso e corno, munindo-se de utensílios finos e perfeitos, tais que a humanidade não poderá excedê-los, senão em passando da pedra para o metal.
Sobretudo a agulha revelava uma engenhosa indústria: esquirolas arredondadas por meio de sílex denteado e com entalho; polidura e alisamento com grés fino; escavação do fundo na ponta curva, com uma lentidão calculada, com mil perigos de se partir a obra.
Em quanto os trabalhos começavam, um grupo de caçadores reunia-se junto da caverna.
Ao rochedo mais alto subiu um moço, de olhar penetrante, a explorar as perspectivas. À sua esquerda, sob reflexos de ametista embaciada, frouxa e vaga, a floresta esbatia-se no horizonte, prolongando-se até o rio. Em frente, os valeiros, as quebradas das estepes, a ondulação suave dos outeiros, oásis semelhantes a nenúfares num pântano, o espelho sinuoso das águas fecundas. Atrás, perdida na poeira da tíbia claridade das nuvens, a região das montanhas; e por toda a parte perfis diminutos de animais pascendo em planícies: o caçador contou uma horda de cavalos e um rebanho de uros.[{17}] Com uma voz atroadora, anunciou-os aos seus companheiros, traçando com o dedo a direcção da caça. Àquele aviso, todos tomaram as armas: o arco, o arpéu, a zagaia, a clava. Depois, no momento da partida, a velho chefe, lançando um olhar em roda, bradou:
—Vamiré!—
Então, no portal das grutas, apareceu o moço que vencera o espeleu. Hesitou entre o desejo de prosseguir na preparação da manta que talhara na pele do monstro e que começara na véspera, e o desejo da caça. Decidiu-o a mocidade, a atracção dos vales rejuvenescidos, as exclamações dos seus companheiros. Reentrou na caverna, e reapareceu logo, armado de arco e clava, e o bando pôs-se em marcha para o Norte. Cheios de vivacidade ao principio, excitados os cérebros bárbaros pela marcha e pelas belezas matinais, foram-se tornando depois silenciosos.
De súbito, um rebanho de uros apareceu-lhes no alto de uma colina. Os grandes herbívoros espalhavam-se em triângulo, em número de muitos centenares, numa área de dois mil cúbitos. Os toiros, de flanco leonino, crânio volumoso e pelo avermelhado, circulavam, a passos lentos, entre as fêmeas e os machos tenros. Aquele rebanho enorme realizava um esplendor de vidas tranquilas, de majestade pacifica e de força social. À voz do condutor, (um toiro colossal, postado no ângulo mais agudo do triângulo), os outros machos agruparam-se para o combate. Uma inteligência selvagem,—inteligência atrofiada, entre os seus irmãos da Ásia,[{18}] por uma servidão que já existia desde muito,—tornava-os aptos para a táctica, para a espontaneidade.
Os caçadores pararam. Encobertos por um cabeço, discutiam o plano de ataque. A configuração do terreno e a situação das feras davam lugar a duas alternativas: atacá-las, ao mesmo tempo, à direita e à esquerda, aproveitando a série de outeiros transversais, ou contornar a planície, e surgir lá de baixo, a duas léguas, de uma densa mata de figueiras silvestres.
Depois de alguns minutos, a maioria optou pelo primeiro método, porque o outro, embora mais produtivo em caso de bom êxito, era evidentemente menos seguro, podendo qualquer pânico afastar os uros, antes de serem assaltados.