E, à borda da caverna, apareceram os homens.[{13}]
[[1]] Espécie de uro. Os franceses chamam-lhe auroche, palavra alemã, de auer, planície, e ochs, boi. (N. do trad.).
[[2]] Espécie de boi selvagem. (N. do trad.).
[[3]] Homens de crânio oval. (N. do trad.).
[[4]] Corpulento animal felino dos tempos pré-históricos, felis spelaca.
[II
A horda]
Aos sorrisos da manhã, quando a aragem afagava, regeneradora e voluptuosa, o rio e a planície, os tições da primeira refeição extinguiam-se à beira da caverna dos homens.
A árvore-sepulcro[[5]] de cem cúbitos de alto, estendia os seus braços, cheios de esqueletos pálidos, de trogloditas extintos. Ao frouxo embate da viração, o ossário aéreo emitia cânticos suspirosos, eufonias silábicas; e um velho, apoiando o tronco em os calcanhares, punha os olhos présbitos em tais ou tais crânios que surgiam de entre as sombras ramusculares, reconstruía mentalmente os anais de tal ou tal caçador glorioso, de tal[{14}] ou tal companheiro da mocidade, devorado pelo nada.
A horda de Pzanns, espalhada, ressentia-se do encanto daquela hora. As crianças saltavam pelo campo, até à fronteira das águas; entre os salgueiros, misteriosamente, alguma rapariga semi-nua avivava a sua frescura e os seus enfeites, enlaçava as ondas fulvas dos seus cabelos; os homens compraziam-se em projectos de caça ou de trabalho, quase todos corpulentos e musculosos, de crânios alongados e cheios de energias belicosas. Em tigelinhas de sílex, alguns guerreiros moíam e misturavam o minio vermelho com medula de uro, e pintavam o rosto e o peito com um fino pincel de fibras: parábolas mal-feitas, fios entre-cruzados, vagas representações do natural, pequenos anéis, traços irradiantes. Outros prendiam aos joelhos, ao pescoço, à testa, aos pés, ornatos bárbaros, pingentes de caninos furados à nascença, (dentes de leão, de lobo, de urso, de auroco, de veado), vértebras de peixe, cristais com reflexos de ametista, seixos gravados, e a miúda joalharia marinha: a porcelana-lúrida, lapas, litorinas.
A horda representava uma humanidade já propensa ao ideal, industriosa e artista, caçadora mas não belicosa, que aceitava o mistério das coisas sem ter ainda conhecido culto, dominada apenas por vagos simbolismos. Eram filhos da grande raça dolicocéfala, dominadora da Europa quaternária, vivendo em paz, de horda para horda, estranhos à degradação da escravatura; caracterizava-os uma nobreza rude, uma grandeza e uma bondade que não mais se encontrarão no decurso da[{15}] neolítica[[6]]. Eram largos os seus campos e tão ricos de alimentos, que ainda não surgira o instinto de apropriação directa nem sombra de astúcia vil. Os condutores de tribo, sem autoridade efectiva, livremente escolhidos e seguidos, por virtude da sua seriedade e experiência, ainda não haviam entronizado o despotismo. Unicamente as questões de amor e rivalidade manchavam, algumas vezes, a terra com o sangue de homem, derramado por homem...