Ao agitarem-se os ramos, o espeleu inquietou-se, rodeou a moita, e, vendo surgir um vulto humano, rugiu. Ante esta ameaça, desvanecida qualquer tergiversação, o caçador, de músculos ágeis e destros, ergueu a zagaia e apontou. A arma vibrou, seguiu direita o seu caminho e foi cravar-se no pescoço do felino.
—Eô! Eô!—gritou o homem, brandindo a clava com ambas as mãos.
Depois, tornou-se imóvel, firme, belo gigante, herói das idades de luta, de olhar lúcido.
O espeleu avançou, calculando o salto. O homem, com uma destreza maravilhosa, fez um movimento obliquo, deixou passar o monstro, a sua clava desceu como um martelo formidável, e estalaram vértebras. Um rugido estrangulado de pranto, a queda, a imobilidade imediata do colosso; e o homem repetiu vitorioso o seu grito de guerra:
—Eô! Eô!
Continuava todavia na defensiva, temendo a repetição do ataque, contemplando a fera, os seus grandes olhos amarelos, abertos, as suas garras do comprimento de meio cúbito, os seus músculos enormes, as suas goelas escancaradas e ainda cheias do sangue do leão e do veado, todo aquele admirável organismo bélico, de ventre pálido, sob a pelagem amarela, mosqueada de negro...
Mas estava bem morto o espeleu, e já não tornaria a encher de pavor as trevas.[{12}]
O homem sentiu no peito um grande bem-estar, uma plenitude de orgulho dulcíssimo, uma dilatação de personalidade, de vida, de confiança em si, que o pôs nervoso e contemplativo, ante as flores que a aurora iluminava.
As musicas e a brisa da manhã ergueram-se ao mesmo tempo no horizonte. Os animais diurnos foram abrindo as suas pupilas, as aves pipilaram de encantadas, voltando-se para o Levante, entumecidas as suas pequenas cornamusas. Sob transparente névoa, o rio parecia de estanho levemente embaciado; depois, mergulharam nele os esplendores do vapor e nele se reflectiu um mundo de formas e matizes. Os cimos dos grandes choupos e das pequenas graminias da planície estremeceram, ao mesmo hálito quente de vida. O sol já se elevava acima da floresta distante, e os seus raios estiravam-se pelo vale, entremeados de sombras de árvores delgadas e intermináveis. O homem estendia os braços, numa religiosidade vaga, sem culto determinado, compreendendo a força e a eternidade do sol, e o efémero da sua personalidade. Depois, teve um grito, o seu grito de triunfo:
—Eô! Eô!—