Por sua vez, rolou pelo chão; por sua vez, viu baixarem-se as agudas e velozes pontas da cornadura, e todos o julgaram perdido. Mas, de repente, ágil como o salmão que sobe um rio, apareceu, de clava erguida, Vamiré. Teve apenas tempo de retirar Terann e arrojá-lo ao acaso, enquanto os trogloditas bradavam:

—Vamiré é forte como o mamute!—

Com um aceno, Vamiré desviou qualquer auxilio. Depois, colocando-se a seis cúbitos do toiro, falou-lhe assim:

—Retira-te, valente..., tão digno de viver e de[{22}] conservar a grande raça dos uros, tão digno de pastar por muito tempo as boas ervas da planície.

Imóvel, o bovídeo fitava no caçador as suas largas pupilas azuladas; e uma piedade misericordiosa segredava, na alma de Vamiré, penas por aquela grandiosa alimária, sacrificada à fatalidade das lutas. Entretanto, triste, já sem arrojo e com as artérias exaustas, o toiro baixava ainda a cornadura, aguardando o ataque do homem. E Vamiré prosseguiu:

—Não, valente..., Vamiré não tocará no grande uro vencido... Vamiré sentiria que as planícies ficassem privadas do valente, que pode proteger a sua raça contra o leão e o leopardo...

Dobrado sobre os joelhos, o uro parecia escutar o caçador, num sonho dilatado e vago. Depois, a sua cabeça oscilou, um eco débil de rugido estremeceu-lhe na garganta... O toiro prostrou-se, as suas pálpebras entrecerraram-se, e o seu último alento exalou-se sobre as gramíneas.

Assim findou a caça, numa grave tristeza; e os cinco uros, que jaziam dispersos na planície, haviam custado a vida a um filho dos homens, porque se viu que Vanhab, filho de Djeb, acabava de restituir o seu ser às coisas. E os guerreiros Pzanns ainda uma vez reconheceram a força e a coragem do uro; mas, por um sentimento de indefinida discrição, sentiam agora mais amargura que cólera. Associados às últimas palavras de Vamiré, sabiam que a existência do herbívoro é necessária à dos homens; e é por este profundo sentimento que eles, muitos milhares de anos antes da domesticação[{23}] da alimária, tinham aprendido a dispor moderadamente de qualquer vida, salvo da dos carnívoros e parasitas, e a mostrar-se generosos com os uros valentes, para que as hordas de veados, os rebanhos de bovídeos e as caravanas de cavalos estivessem fortalecidas contra as grandes feras.[{24}][{25}]

[[5]] Refere-se o autor à árvore, que os nómadas escolhiam, para nela dependurar os esqueletos dos seus mortos. (N. do trad.).

[[6]] Segundo período da idade de pedra, chamado também idade da pedra-polida.