Ia chegando a noite. À hora do crepúsculo, Vamiré, parou à beira de um oásis e passou ali a noite. No outro dia, prosseguiu na marcha, resolvido, se não sobreviesse alguma aventura, a regressar, visto como havia descoberto o que desejava: novas terras de caça.

Pegadas de uros, de aurocos, de veados, de cavalos, convenceram-no da fecundidade do terreno, e projectou uma grande expedição de moços Pzanns, para o ano seguinte. Mas, ao segundo terço daquele dia, ocorreu uma aventura importante.

Foi durante uma paragem, quando o nómada acabava de comer um par de codornizes, caçadas durante[{46}] a marcha. Abrigado sob umas figueiras silvestres, viu aproximar-se uma mulher.

Vinha vestida de fibras vegetais, entretecidas de gramíneas da planície.

Vamiré encobria-se; a onda que nele se agitava, do coração ao cérebro, traduzia ansiedade e satisfação.

A certeza de que ela era moça demonstrava-se não só ao simples aspecto, à proporção que ela se aproximava, mas também pela cadência do andar e pela flexível vacilação das ancas.

Quando ela chegou a trinta passos, viu-se que atingia apenas a puberdade, mimosa virgem de grandes olhos, surpreendendo Vamiré pela dissemelhança com a rapariga vulgar da Europa, de crânio alongado e compleição robusta.

O seu rosto, um pouco redondo, pálido como as nuvens primaverais, os seus cabelos iguais à melânia dos lagos em noites sem estrelas, a sua cintura breve, mais comparável à circunferência dos freixos que à dos choupos, e o porte da sua figura, e a forma dos seus lábios e da sua fronte, e o talho das suas pálpebras, tudo lembrava a raça longínqua, a humanidade que se engrandecera, após milhares de séculos sem contacto com as hordas nómadas do Ocidente.

Vamiré,—da mesma forma que o herbívoro, estranho desde séculos às regiões bravias, guarda o instinto atávico de reconhecer o grande tigre,—Vamiré percebia a distância entre o seu organismo e o da adolescente. Previu coisas inteiramente novas naquele recanto do mundo, aonde o levara um capricho seu; e esta[{47}] presciência do desconhecido abalou-o. Hesitava o nómada em assaltar aquela presa de amor, e uma horripilação atravessava-lhe as fibras, como a aproximação de uma tempestade nos nervos de um pássaro. Mas na sua imaginação bárbara, agitada por um sangue eléctrico e por todo o amor de Maio, a estrangeira pareceu infinitamente apetitosa.

Filho da arte, propenso à voluptuosidade dos contrastes, sentiu-se atraído pelos longos cílios de frouxel negro, pelo andar oscilante, pela precisão dos contornos, pela encantadora viveza das pupilas, e resolveu-se.