Mas, enquanto hesitava, a viandante abeirou-se do oásis. Vamiré levantou-se de um salto, com a rapidez de um garanhão.
Sentindo rumor e voltando-se, a virgem viu chegar Vamiré. Assombrada e gritando plangentemente, tentou fugir. Pisava as grandes ervas, correndo ligeira, mas sem esperança de escapar ao formidável caçador, e por duas ou três vezes procurou ladear, encobrindo-se com as moitas, tomando por tangentes. Vamiré perseguia-a, cada vez de mais perto, retardado simplesmente pelo prazer de ver flutuar os cabelos da fugitiva e requebrar-se seu tenro corpo em curvas tentadoras. A virgem sentiu-o enfim junto de si, e na cabeça o hálito do caçador.
Parou e voltou-se. Com o susto a reflectir-se nas pupilas, e o peito turgescente sob as fibras do vestuário, ergueu os braços suplicante, em meio de uma caudal de palavras confusas.
O nómada ficou imóvel diante dela, convencido[{48}] da impossibilidade de compreender aquela linguagem, mais rápida e mais sonora que a sua. Mas a linguagem da natureza, o terror impresso nos lábios e nas pálpebras da desconhecida, moveram-no à piedade. Menos vivas e mais profundas, percorreram-lhe o organismo novas impressões, esboço de poema selvagem e retraimento de brutalidades voluptuosas diante da ternura.
Teria ela a compreensão, o instinto sequer, do seu triunfo sobre o grande ocidental de cabelos claros?
Menos tremula, continuou a murmurar silabas, mescladas de uma indecisa malícia. Vamiré tentou responder, significar-lhe que não queria fazer-lhe mal. Mas os seus gestos de estatuário eram novos para ela, que os observava atentamente. Filha de raças não plásticas, de raças cultuais, não compreendia senão movimentos amplos e monótonos, distantes da natureza. Mas ainda mais que pelos gestos, pareceu surpreendida quando Vamiré, desprendendo um dos seus enfeites de marfim, lho ofereceu: não sem desconfiança, a virgem contemplou as linhas gravadas na pequena lâmina,—a corrida de um uro, perseguido por uma fera,—e pegava no artefacto em sentido contrário sem o compreender. O nómada, sorrindo, pôs-se a indicar a direcção dos traços, a representar o desenho por gestos, perturbando-a ainda mais.
Entretanto, os olhos e as interjeições de Vamiré iam-na tranquilizando a pouco e pouco.
A desconhecida já sorria também. Então, cheio de alegria, Vamiré pôs-lhe a mão no ombro. Ela recuou, voltando à desconfiança.[{49}]
—Vamiré é bom!—murmurou ele.
De repente, a desconhecida, estendendo os olhos pelo horizonte, deu um salto e bateu as mãos. Vamiré, seguindo-lhe a direcção do olhar, viu, contrariado, aproximar-se, correndo, um grupo de homens, enquanto ela, com um gesto, um tanto travesso, fazia sinal ao nómada para que fugisse.