Correu tempo. A lua começou a declinar e estava a menos de trinta graus do horizonte, quando Vamiré despertou.
Com um lance de olhos, assegurou-se da presença da sua companheira e pôs-se de pé, observando a planície. Mas nada viu de duvidoso, e concluiu que os perseguidores tinham desistido do intento ou que a sua fadiga, maior que a dele, os condenara ao repoiso.
Como se sentia bem disposto e com as forças restabelecidas, resolveu aumentar ainda aquela boa disposição e pôr-se a caminho.
Restava um pedaço de lebre; partiu-o em dois e comeu um. Depois, tendo refrescado a cabeça no regato, ficou, por alguns minutos, contemplando a adormecida.
Estava estendida agora sobre o solo. A delicada cabeça apoiava-se no cotovelo. O seu corpo, dobrado em ziguezague, tinha um estranho encanto, que alvoraçava Vamiré.
Uma onda de sangue rugiu nas fontes do caçador; reaparecia nele o instinto selvagem.
O homem abaixou-se. Mas que instinto ou que doçura poética o fez erguer, cheio de piedade?
Incapaz de a analisar, sem que ela por isso o impressionasse menos, acordou a sua companheira, tocando-lhe[{57}] levemente. Ela ergueu-se lentamente, assustada, estremunhada. Depois, readquirida a percepção das coisas, ficou triste e estendeu um olhar sombrio às estepes lunares, à queda avermelhada do astro nos abismos ocidentais. Entretanto, foi-a invadindo uma vaga satisfação, pois que o dia se aproximava, e as suas carnes viçosas eram uma invocação à felicidade.
De maneira que não recusou a ligeira refeição, oferecida por Vamiré, e até, renascendo-lhe o apetite, sentiu prazer em mordiscar a coxa assada da lebre. O caçador, encantado, admirava-lhe os dentes de lobo, a cabeladura desprendida ao longo do pescoço; e não sei que sentimento de maternidade se mesclava ao amor crescente do moço pré-histórico.
Furtivamente, de olhos baixos, ia-se ela acostumando à presença do caçador, achava-o mais belo e mais robusto ainda do que na véspera, mas; a sagrada recordação da tribo interpunha-se aos dois e enchia-a de saudades.[{58}][{59}]