Depois de algumas tentativas, a chama levantou-se, pequena ao principio, mas avivada depois por mancheias de combustível, acertadamente dispostas, e a lebre começou a assar-se.
A asiática, à vista do lume, inclinou-se, como fizera[{55}] diante do sol poente, e com igual melopeia de palavras.
Vamiré, impassível, acabou de assar a lebre. Depois, convidou a sua companheira, e ambos comeram em silêncio.
A refeição foi breve. O cansaço de um e a comoção de outra não lhes permitiam comer muito; mas atormentava-os uma viva sede: era mister prosseguir na marcha até se achar água.
Puseram-se em marcha, e, antes de mil passos, Vamiré começou a ouvir o murmúrio de águas e, logo após, avistou um regato, onde se dessedentaram.
—Dormir!—deu a entender o homem.
Ela compreendeu o gesto. Perturbou-se, perscrutou Vamiré, que, à palidez do luar, tinha um aspecto triste, abatido, nada feroz. Sentou-se então contra um vidoeiro e, um tanto receosa ainda, entrecerrou as pálpebras, em luta com o cansaço. A natureza dominou-a, e ela cedeu à semi-morte quotidiana.
Sentado à beira do regato, Vamiré contemplava as facetas da água, as retículas da vegetação, as ombreiras dos salgueiros interpostos diante da lua.
Pelo seu cérebro vagueava um devaneio vasto e tranquilo como a noite. Amortecido pela fadiga, toda aquela aventura se lhe esboçava em notas lentas, profundas, eternas. A ascensão da lua, o uivo dos animais, o murmúrio dos fluidos, os fantasmas arborescentes erguidos na planície, pareciam conceder-lhe o tempo e o espaço. Por ter trazido consigo a donzela, parecia-lhe sua, como a pele do espeleu, que lhe pendia dos ombros.[{56}]
Mas o firmamento começou-lhe a vacilar, as árvores iam-se transmudando em fisionomias movediças. Por sua vez, Vamiré sentiu o ambiente pesado, o seu ser retraído e as suas carnes cedendo ao repoiso. Deu vagamente alguns passos por baixo do vidoeiro, segurou com a mão a veste da adormecida e estendeu-se sobre as ervas.