Chegava o crepúsculo. Com uma lentidão majestosa, os mundos do colorido iam-se apagando sobre o Poente, e Vamiré estremeceu, vendo a sua companheira inclinar-se, estender os braços para o horizonte e falar ao disco do sol. Filho dos ocidentais não hieráticos, vagamente supersticioso mas sem culto, não compreendia o acto da oriental e olhava-a com curiosidade, com inquietação talvez.

Quando ela terminou, demoraram-se ainda algum tempo, até que a lua se ergueu.

—Vem,—significou Vamiré.

Ela compreendeu o gesto e, sem resistência, marchou ao lado dele. Depois, na solidão da noite, enquanto o lobo e o chacal começavam a uivar sobre as estepes, ele era um apoio. A estrangeira admirava profundamente a grande clava do caçador, lançada ao ombro e fixada por ligaduras. Era já um principio de intimidade, de confiança, de resignação mais calma. Mas Vamiré, cheio de cansaço, não tinha o ardor de pouco antes, esgotado nas suas artérias o sangue de Maio, cheio de poderosas moléculas.

Marcharam por muito tempo os dois vultos, enquanto subia a lua pré-histórica. Começava a estepe a cobrir-se de mais numerosos oásis; as árvores, multiplicando-se em moitedos, anunciavam a proximidade da floresta; os raios do luar incidiam mais prateados sobre as ervas, e Vamiré entendeu que a sua companheira devia ter fome e sono. Ele tinha sobretudo sede.

—Descansa!—disse ele; Vamiré vai caçar.

Ela assentou-se, submissa. Era debaixo de três figueiras[{54}] silvestres, robustas e cheias do perfume da primavera. O sonho infiltrava-se por entre as ramarias, o eterno sonho da lua e das constelações; e a filha dos orientais entregou-lhe a sua alma confusa. Sonhando, percebia a fragilidade do seu ser; a sua família e a sua tribo, o larário da noite, os sacerdotes, os rebanhos de bois asiáticos, povoavam-lhe a mente e torturavam-na até as lágrimas; mas, ali sozinha, não chegava a odiar o homem que a roubara, antes o considerava como barreira única diante da noite formidável.

Vamiré, na planície observava atento o horizonte. Perfis de felinos apareciam a espaços. Muito ao longe, um cervídeo ia fugindo. Mas eis que um lobo, de focinho erguido, se aproxima das três figueiras; quase ao mesmo tempo, saltou assustado um animalzito, uma lebre.

Postado em linha obliqua, Vamiré esperou o ponto em que lhe ficasse mais próxima a carreira dela; depois, a sua zagaia ergueu-se, sibilou, e o pequeno animal rolou entre as ervas. Ao salto do caçador, o lobo fugiu e Vamiré foi apanhar a lebre.

Esfolou-a rapidamente e suspendeu-a de uma frança. Depois, ajuntando ramos e ervas secas, tirou de um saquete o sílex com que os dolicocéfalos faziam lume, estendeu as fibras mais secas e fez saltar centelhas.