Devidamente, ele estava de melhor partido. Os outros, lá em baixo, mais vagarosos, mais hesitantes, chegados a uma zona, em que as pegadas de uros se confundiam com os vestígios de Vamiré, certamente não podiam ainda explorar o rio. Vamiré apontou-os, triunfantemente com o dedo à oriental:

—Nunca mais te haverão..., nunca mais!—

E, obrigando-a a sentar-se de novo na canoa, retomou o remo e continuou a costear a ilhota.

A pequena embarcação singrou silenciosamente por algum tempo. A ilha ia-se alargando, recoberta de áspera vegetação, de árvores devoradas por cipós. De espaço a espaço, descobriam-se sapos colossais, aves pernaltas, palmípedes.

Através do incenso primaveral, da alegria perfumada das corolas, emanava das sombras um bafio de humo, de madeira bolorenta, de organismos sáurios. Aqui e ali, pontais a dobrar e plantas fluviais sobrenadando, atravancavam a canoa. As ogivas dos ameeiros e dos freixos roçavam Vamiré e a sua companheira; e a imagem trémula das coisas ressaltava das águas, revestida, ao mesmo tempo, de uma graça mais discreta e de uns revérberos vertiginosos.

E assim foi chegando Vamiré até meio da costa; depois, a ilha começou a estreitar-se, a afilar-se, à feição de proa.[{63}]

As águas azulejaram. Avistou-se enfim a ponta da ilha; o rio mostrou-se largo e límpido; a floresta ostentou-se a três mil cúbitos.

O nómada entendeu que, ficando à esquerda, a interposição da ilhota-navio o tornaria seguramente invisível, enquanto os seus inimigos não chegassem ao ponto marginal correspondente ao centro, dado que eles continuassem a persegui-lo. Ainda mesmo que eles passassem para a outra margem,—caso em que o perigo seria mais próximo,—ele chegaria provavelmente à região florestal antes de ser avistado, e ali a dificuldade da marcha para eles dava toda a vantagem à canoa, vogando livremente sobre as águas...[{64}][{65}]

[VIII
Noite na floresta]

Ainda a noite! A vida imensa e minúscula; o mistério das forças; léguas de floresta; o choque das moléculas e dos seres; o contacto interminável da terra; o eriçar-se dos organismos imóveis, de veias frias, estremecendo ao roçar da aragem; o divagar da fome, das angustias, dos amores; e um astro de âmbar pálido rolando nas solidões do firmamento.