Estendido no fundo da pequena barca, Vamiré cobria com a mão o seu ferimento, coberto de sangue coagulado.

Havia uma hora que ele esperava uma reacção favorável para abicar na margem, porque a perda de sangue o mantinha prostrado, num suave meio-deliquio, em que ia perdendo a nítida concepção do seu ser. As coisas figuravam-se-lhe pequeninas, quase imperceptíveis, ao passo que o coração lhe vogava nas delicias de uma onda morna, asfixiante, confrangente.

Passou afinal a crise. Com a febre, renasceu a força. O Pzann pôde impelir a barca até à margem, desembarcou, e apanhou folhas balsâmicas e resina para o penso da ferida. Depois, lavou a ferida na água corrente, refrescou os lábios, e estendeu na ferida uma compressa de folhas embebidas de resina, e, por cima, uma atadura de pele. Este penso, de uma solidez a toda prova, permitia evaporação suficiente, e dava até lugar à supuração.[{80}] Ao cabo de oito dias, seria mister renová-lo; mas, até lá, graças às folhas aromáticas e à resina, pouco havia que recear.

Vamiré sentiu grande alivio; a inquietação, que toda doença importa, desapareceu, e um grande orgulho despertou, uma alegria de vencedor: comeu e bebeu voluptuosamente, e pôs-se depois em cata da madeira necessária para o fabrico de novas armas. De pronto adquiriu as hastes: doze, pequenas, para zagaias, e uma, grande, para lança.

Quando trabalhava, sentiu a tentação de ter um arco e frechas, à maneira oriental, feitas de madeira endurecida ao fogo. A banda do arco era chata, mas larga, com um encalhe redondo, para dirigir a frecha. Vamiré arrancou um pequeno freixo, cujas extremidades queimava, e passou depois longas horas a desgastar o tronco, servindo-se alternadamente do fogo e do sílex.

Era sol posto. Vamiré não concluíra o seu trabalho, e calculou que precisava de dois dias, afora o tempo para aguçar as frechas. De forma que, ao passo que buscava abrigo nocturno, planeava acabar primeiro a lança, as zagaias, os arpões, para se precaver contra qualquer ataque, aliás improvável.

Os orientais, com os seus dois mortos, com os seus feridos, entre os quais o chefe, não pensariam logo em reabrir hostilidades; e, de facto, dirigiam-se apressadamente para as suas estepes, levando consigo Élem. Vamiré sorria, ao pensar que eles a não possuiriam definitivamente, e adormeceu tarde, excitado pelos estratagemas que ele estudava para a readquirir.[{81}]

No outro dia, ao despertar, uma grande fraqueza o prendia ao solo. Começava a cicatrização... Arrastou-se com dificuldade até à margem, onde adormeceu, depois de se ter dessedentado, em risco de ser devorado pelas feras.

Quando acordou, ia o sol a pino. Vamiré dessedentou-se de novo. A cabeça ardia-lhe, as veias latejavam, as ideias eram confusas.

Compreendeu que o dia estava perdido, resignou-se, e meteu-se na barca, junto à ribanceira. Com intervalos, em que ele ia matar a sede como sonâmbulo, as trevas envolveram-lhe a existência, até a alvorada próxima. Abeirou-se do Nada. Em toda noite, a sua robusta organização agonizou nas sombras. Os períodos da crise sucediam-se como ondas de maré. Mas, com a alvorada, chegara a calma, o sono fora vigorificante, e, no quarto dia, Vamiré acordou com fome.