Um momento de tréguas. Os asiáticos coleiam por entre os espinhais, procurando cortar a retirada de Vamiré. No cinzento das faias que formavam polistilos obscuros, na eterna penumbra sotoposta às frágeis padieiras de ramaria, Vamiré entrevê-os, com um olhar de melancolia belicosa, e entretanto o sol ilumina a grande arena, o cerrado espinhoso, de onde os orientais espiam o inimigo. Na cabeça longa do Pzann, através da febre da luta, a impressão de um recontro impertinente, o receio de perder Élem, e de se ver, por muito tempo, rodeado apenas do mutismo petrificante das coisas.

Para arremessar, tem apenas o arpão. O chefe oriental quer um assalto em massa, em que, se algum perecer, possam os demais vingá-lo. Disseminados, para não constituírem alvo muito certo, correm sobre o raptador... O arpão, arremessado, não faz vitimas, separando-se da haste o chifre. Mas Vamiré descobre novo recurso num sílex ovóide, que ele traz consigo, e serve-se dele como projéctil, ferindo o velho chefe. Este verga-se, estóico, em luta silenciosa contra a dor. Vence-a, levanta-se, junta-se ao bando, e no seu semblante espelha-se o sofrimento e o ódio.[{77}]

Vamiré tenta ainda fugir. Sobraça Élem, mas fraqueja. Seguem-nos as frechas: uma ferida seria a morte... Demais, carregado com Élem, em pequeno espaço, quase sem dianteira, será apanhado à beira do rio, antes que a barca possa vogar ao largo. Depõe Élem, deixa-a livre. Ela porém não se retira, cheia de ansiedade pelo Pzann. Este compreende-a, e, levantando o pensamento a Zom, a Namir, às cavernas e às grandes planícies, aceita o combate...

Corpo a corpo, impossibilitado o êxito das frechas, a refrega começa mal para os orientais: uma lança é despedaçada pela clava de Vamiré; outra é tomada por ele; e, terrível, ambidextro, faz, ao mesmo tempo, uso das duas armas... Recuando, avançando, segundo a oportunidade, chega a manter em respeito os cinco braquicéfalos, e fere até um deles, ligeiramente, no peito...

Mas estas peripécias afastaram-no de Élem... vê-a em poder dos inimigos, e adianta-se para a reaver... Fere-o de lado uma lança; corre o sangue... Em desforra tremenda, parte o crânio de um oriental, e prostra outro no solo, com um ombro escalavrado, enquanto com uma lançada atravessa a coxa do chefe...

O Pzann todavia sente-se fraquejar, e todas as suas forças se congregam na defensiva.

Élem solta doloridos clamores; os da sua raça dispõem-se para o assalto final; e o ardor belicoso arrasta o próprio velho para junto do inimigo ferido...

Era o fim. Vamiré procura escapar-se. A sua clava é brandida ainda uma vez, e faz ainda uma vitima...;[{78}] depois, apanha apressadamente uma lança e um arpão, corre para o rio, salta para a canoa e três remadas confiam-no à corrente.

Os seus adversários medem o perigo de uma luta aquática. O chefe proíbe que tentem o perigo... Todos então empunham os arcos; mas o tiro é inútil, porque a barca desaparece por trás de uma ilhota.[{79}]

[XI
Vamiré]