Abaixa-se o arpão pela terceira vez, e Vamiré, segurando a haste, crava a ponta aguda no flanco de um pequeno esturjão. O peixe ondula e ressalta; as empolgueiras opõem-se à saída da arma; mas, com os saltos eléctricos da presa, os liames estão em risco de se partir, e é mister que Vamiré manobre habilmente, para evitar os repelões muito fortes ou muito perpendiculares.
Vai pangaiando com a mão esquerda e impelindo a presa adiante de si, até à borda do rio; chegado ali, crava ainda mais o arpão, levanta enfim o esturjão ensanguentado e atira-o para a margem.
Vai preparar a refeição. Os ramos secos, as hastes herbáceas, devoradas pelo fogo, produzem um acervo de cinzas pardas, onde se embebem pedaços da presa, e de onde se retiram, transmudados em carne tenra e saborosa, que Vamiré e Élem comem com apetite.
Um pouco entorpecidos pela boa refeição, estiram vagamente os olhos pela diversidade das coisas; acham-se a bastante distância da margem, numa clareira, ladeada de faias giganteias. Abundam as sarças, que vão recosendo os rasgões, ali abertos por alguma catástrofe antiga, e refazendo a integridade da floresta. Desabrocham robustas compósitas com uma flor amarga; e crescem cardos colossais, hirsutos, farpados, soberbos e terríveis.[{75}]
Élem e Vamiré devaneiam suavemente em completa tranquilidade; mas eis que uma frecha passa a dois palmos do Pzann. Este levanta-se, e empunha as armas. O seu olhar adestrado descobre perfis humanos atrás dos troncos das faias.
Aqueles perfis emergem a súbitas, e uma nuvem de frechas dilata-se no espaço.
Naquela hora de perigo, o instinto encosta Élem ao peito de Vamiré, ao passo que a luta se anuncia, ao passo que os inimigos, em número de sete, se aproximam céleres. São atarracados, são os homens do Oriente, de olhos de Érebo. Conhecem a agilidade de Vamiré e, formando leque, caem sobre ele, por forma que lhes não possa escapar. Já os arcos estão tendidos, as frechas envenenadas vão descrever as suas terríveis parábolas, mas erguem-se vozes, indicando o perigo de Élem, e todas as mãos substituem a frecha pela lança.
Vamiré encara-os altivamente, e o seu grito de guerra perturba o coração dos mais valentes. Reconhece nos seus inimigos a raça de Élem, crânio largo, pele trigueira, olhos escuros. Trazem tatuados os braços e a testa, e comanda-os um velho robusto.
Vamiré empunhara a zagaia... os homens trigueiros resguardam-se com os troncos mais próximos... Então Vamiré sobraça Élem, e vai recuando para o rio, onde espera poder embarcar... A uma ordem do chefe, chovem as frechas, que o Pzann desvia lestamente, acelerando a retirada.
Táctica hábil, com que os orientais se irritam, e adiantam-se três deles. Mas a zagaia de Vamiré atravessa[{76}] o mais ágil, e o Pzann solta o riso triunfal da sua raça, entendendo que os dois sobreviventes não terão a coragem de lutar contra ele... A sua clava gira no espaço, a provocá-los; do seu peito hercúleo saem rugidos ferozes; o seu braço dispõe-se ao extermínio... O chefe antevê a perda dos seus, ordena-lhes que parem, e eles obedecem.