O herbívoro hesitou, estirando a pupila oblonga pela melania do matagal. Mas o homem já recuava, e o instinto da fera viu nisso uma fraqueza. A súbitas, baixando a cabeça até o solo, atirou-se contra o bárbaro. Este viu-a aproximar-se, suspendeu-lhe das pontas o seu pesado manto; e, enquanto o cervo se desembaraçava do manto com um movimento formidável, o caçador cravou-lhe a lança entre as costelas, fazendo-a entrar até o coração.
O animal caiu, e Vamiré sentou-se, extenuado pelo esforço. A pouco trecho porém, levantou-se, acendeu lume, e assou uma posta de cerva.
Satisfeito o apetite, assaltou-o grande tristeza: faltava-lhe Élem. E, ausente, parecia-lhe mais preciosa ainda, com os seus olhos pretos e o seu ar, altivo e terno a um tempo. Lembrou-se das peripécias daquela luta, em que ela o não abandonara. O olhar dele procurou-a por entre as sebes, e Vamiré sentiu confranger-se-lhe o coração, intoleravelmente. Chamou-a pelo seu nome, e meditou, amargamente, nos meios de a reaver.
Hora de calma, silêncio nos bosques. O sol espelhava-se no rio, e coava-se, por pequenas elipses, através da folhagem das balsas. As ramarias repoisavam como grandes nuvens, e o espaço, velado pelas mais altas frondes, entremeadas de clarões esparsos, tinha perspectivas confusas, profundezas de abismos.
Repassado de dor e de solidão, a contemplação[{84}] destas coisas abalava todo o ser do troglodita, até o sofrimento. Ora sentia o desejo de dormir, ora o de trabalhar; perpassava na memória o dia em que ele, nas cavernas, esculpiu um bastão de comando, e isto lhe trouxe à ideia o alce e as novas armas.
Provido de um sílex serreado, pôs-se a trabalhar. À noite, havia já cortado as pontas da cabeça do alce.
Sentiu alguma febre então, porque o vaivém do braço lhe irritava o ferimento.
Descansando, e não podendo dormir, espicaçava-o o desejo de uma expedição, em procura de Élem. Meteu-se na barca e acompanhou a corrente.
A noite abrigava-o em manto de trevas. O rio parecia uma voz de segredo, baixa, murmurosa, de que apenas ressaía o rouco e triste coaxar dos batráquios. Nas superfícies, em que se alternavam as sombras e os reflexos, o voo do morcego perdia-se e reaparecia, incessantemente. A faixa de céu estrelado, dilatada para cima das árvores, cavava um abismo nas águas.
Com algumas remadas, Vamiré aproximou-se da margem, onde combatera com os orientais; depois, deixou-se ir ao grado da corrente, abaixando-se de maneira, que o barco pudesse parecer de longe um tronco de árvore.