Então a pantera refugiou-se na selva, e os enormes[{88}] proboscidios, pendulando as suas trombas, afastaram-se.

Vamiré viu-os desaparecer ao longe, radiante de alegria e ufano da sua coragem. Depois, tomou a piroga aos ombros, internou-se na mata, e empregou as suas últimas forças em apanhar alguns ramos, para consolidar o seu abrigo sob a piroga.

Cansado, trôpego, começava a cravar na terra, junto de uma árvore, os ramos mais apropriados àquele fim, mas teve de interromper essa tarefa: dominou-o um entorpecimento mais forte, e, quando procurava sentar-se, caiu prostrado pelo sono.[{89}]

[XII
O mamute]

Era uma clareira entre faias, carvalhos e olmos. Crescia ali a tabua e o joio, de mistura com ranúnculos, cardos frocosos e urtigas dióicas.

Sob os gladíolos da erva, nas folhas, nas flores, nas hastes, nas raízes, havia o mundo dos insectos, esboço material do futuro mundo do homem, praticando a física, a química, as industrias do utensílio e do ácido, criando a broca, a verruma, a serra, a espátula, a fieira, a escavação na pele, a perfuração com cáusticos, as galerias de mina, a habitação social, a sineta do escafandro, a espada, a armadura, a luz, a seda, o tecido, a cera, o açúcar, o mel.

A madrugada achava-os trabalhando. Nos primeiros alvores, voluteava a grande mosca madaleneana, traçando ângulos; a vespa explorava corolas; agitavam-se, com as suas asas aveludadas, enormes piérides; voltavam do rio nuvens de mosquitos, a abrigar-se nas folhas; as formigas, em legiões, transportavam pulgões,[{90}] estames, grãos, os despojos das minúsculas batalhas da vida; a cicindela, de emboscada, espreitava uma presa; o necróforo, com as suas extremidades palidamente orladas, procurava a carcaça, em que devia pôr os ovos; o fura-pau batia com a tromba na casca dos olmos; o grilo, fatigado das suas vibrações, adormecia; as forfículas embebiam as suas pinças no fundo das corolas; e, semelhante ao tigre, o grande cárabo sobre o escaravelho.

Amodorrado o homem, a floresta parecia inquieta. A zona limitada pela outiva, pela visão, pelos penetrantes perfumes dos exploradores de troncos e ramadas, tudo começou a decrescer, pouco a pouco, à volta do rei bípede: os narizes microscópicos, as sensíveis trompas auditivas, as pérolas negras de olhos salientes, as longas barbas-antenas, perscrutaram as essências, que emanavam do homem, e conheceram a sua própria fraqueza. Apareceram ratos, atraídos pelas correias untadas de tutano; depois, eram as cabeças curiosas dos arganazes e esquilos, espiados pelo grande lince quaternário, das pôlas das altas ramarias.

Decorreram horas. O sol banhou a clareira. A corrente da vida engrossou com os raios solares, com os turbilhões de moscas que traçavam o seu voo enigmático, com os zângões, com as abelhas, mais rápidas e mais sonoras, com o enxamear das aves à sombra do moitedo.

No entretanto, uma hiena, baldada a sua digressão nocturna, claudicava esfaimada entre os espinhais. A sua pituitária reconheceu o odor humano, entre o do coiro[{91}] e o do unto. Aproximou-se. Os ratos debandaram; e a necrófaga, sem sair do seu esconso, compreendeu que o homem não estava morto. A esperança fe-la alapardar-se na sombra, numa semi-sonolência.