Impeliu para ali a barca e, durante alguns minutos, navegou com facilidade; mas, em seguida, cerrou-se o canal com longas plantas aquáticas.
Com a esperança de achar águas livres a pouca distância, o Pzann desviou o obstáculo, e entrou.
Salvo curtos intervalos, os pântanos cobertos de lentilhas, os caniços, as algas, os juncos, continuaram a travar-lhe o andamento, a ponto de que um extremo cansaço se apoderou do homem, e este teve de estender-se por algum tempo no fundo da sua piroga.
Ia adiantada a noite. O zénite empalidecia aos prenuncios da alvorada; e erguia-se da espessura o canto dos galos silvestres. O ligeiro rumorejar da folhagem, o chapinhar de uma lontra, o eterno murmúrio do rio, entremeado de notas claras, eram os únicos ruídos daquela solidão. As coisas pareciam emergir em bruma pardacenta, meio-transparente; apenas, da outra banda do rio, se avistava a orla negra da floresta, entre as águas e o céu.
Vamiré ergueu-se. Sentia extraordinário entorpecimento, que o convidava ao sono. Teve pressa de achar o fundeadoiro, e calculou a distância da margem. Pareceu-lhe considerável, até porque a vegetação aquática se tornava cada vez mais espessa.[{87}]
Chegou a pensar em desistir de fundear e adormecer na canoa; mas, a qualquer movimento, poderia voltar-se a embarcação, e o ferimento ainda não permitia o gesto largo do nadador.
Resignado, prosseguiu, ajudando-se com o remo, ensanguentando as mãos nas folhas cortantes dos caniços, empurrando a frágil embarcação, parando de espaço a espaço, fatigado, nervoso.
Rompia a manhã, e tudo pareceu pálido ao homem extenuado: as águas, o céu, a floresta. O grande rio saía de um horizonte de cinza, e em cinza se alongava ainda.
A ribanceira enfim! Vamiré desembarcava. Desviando as hastes mais altas, avistou uma pantera em briga com um mamute, ainda novo. O pequeno herbívoro, coitado, debalde tentava desviar com a tromba o seu adversário. Avistava-se ao longe a corrida impetuosa da fêmea, em socorro da sua progénie; e o grito do macho entre os caniçais anunciava que se dirigia a nado para a margem. Mas a pantera, de um salto, ficou sobre o dorso do pequeno elefante; já penetrava com as garras o espesso coiro, e dirigia os dentes para o ventre da presa, quando interveio o compassivo nómada. Soltou um grito de guerra, arremessou o arpão e caminhou para o felino.
O arpão fizera apenas sangue na pele mosqueada. A pantera recuou, rugindo, quando surgiu a cabeça enorme do mamute macho. Quase ao mesmo tempo, apareceu a fêmea.