Começavam já a carregar o semblante, com os louvores que ela tributava ao Pzann, quando a interrogavam. Apenas o chefe, observador reflexivo, adoptava um inquérito tranquilo; e ouvia com interesse os pormenores acerca da força, da agilidade e, mais ainda, da indústria e da arte do homem fulvo, e acerca dos costumes da região longínqua. Os seus ódios, que a idade acalmara, engolfaram-no no encantado enigma. Sentia que não tivesse sido aprisionado o grande homem loiro, porque talvez este soubesse até onde se estendia a floresta, de onde vinha o rio, e onde a terra tocava no céu.

De costumes mais selvagens, menos artistas que os grandes dolicocéfalos das planícies do Ocidente, os orientais haviam aceitado desde o principio as jerarquias sagradas. Nas férteis regiões do Levante, alimentavam o devanear monótono e imóvel do pastor. Era mais perfeita a sua organização social; mas aquelas raças não tinham o destino das raças plásticas, aventureiras, laboriosas e individualistas da Europa.[{105}]

Nómadas e caçadores, os orientais exploravam já o vegetal, preparavam massas farináceas com diversos grãos, aumentando assim a sua estabilidade. As colheitas de feno permitiam-lhes sustentar alguns rebanhos de cavalos e de bois asiáticos, contidos dentro de cerrados, porque o animal, pouco domesticado ainda, esquivava-se a aplicações metódicas, e apenas servia para alimentação do homem.

Tudo isto, e a fertilidade das suas terras, tornava as incursões dos braquicéfalos da Ásia menos extensas que as dos dolicocéfalos da Europa. Nas suas florestas, uma fauna de transição vivia onde já se encontravam espécies emigradas do Ocidente, raras variedades de bugios, chacais, gamos misturados com os animais das estepes frias,—mamute, urso, hiena, auroco, uro, boi almiscarado. Na época do regelo, começava o êxodo dos bugios, dos chacais, dos gamos, para os grandes bosques meridionais; atraía-os o verão.

Nas savanas de leste, os asiáticos haviam-se aliado com o cão, cujas vivendas se dilatavam, e que, menos vencido que o antropóide, dispunha de disciplina e de inteligência, lutava como o homem contra as grandes feras, e ajudava-o a caçar o uro ou o chacal, sob a condição de compartilhar os despojos.

À semelhança do homem, os cães haviam compreendido o benefício da sociabilidade, formavam assembleias deliberativas, organizavam exércitos masculinos, tinham chefes encanecidos pelo roçar dos tempos... Nas idades lendárias, foram o inimigo terrível da raça nascente. Já o pai do neandertal lacerava a face do leão e[{106}] domava o dinotério de defesas invertidas; já a terra estremecia sob os passos vagarosos de um entre-sonhador da génese civilizadora, esboçada nos mundos do insecto, e ainda o cão defendia o seu império. E quem poderia prever o desfecho, visto que o antropopiteco se restringia aos agrupamentos familiares, à primitiva horda, enquanto o outro confederava as suas tribos, ampliava a pátria, levantava exércitos, fortificava as suas cidades e educava seus filhos!

Os velhos encanecidos, sabedoria das tribos nómadas, sopeavam o instinto da ferocidade, cheios de emulação no ensino dos conhecimentos, cheios do mistério das coisas, aventurando explicações rudimentares sobre as fases da lua, sobre o curso das estrelas.

Devia-se-lhes a aliança com os cães, e estimulavam as tentativas de domesticação, com respeito aos insectos, às aves, ao uro, ao cavalo, ao urso, ao lobo. Ocupava isto capitulo extenso em seus anais.

Conheciam o capricho dos animais, e sabiam que, se alguns cedem à força, outros preferem a morte à violência.

Iam a consideráveis distâncias ver as tribos das chuvas, onde o feiticeiro Nadda criava abelhas; a tribo da lua, onde os guerreiros moços cavalgavam poldros; a tribo do trovão, onde três ursos viviam com os homens.