Em meio de tais recordações, o chefe oriental sentia crescer o despeito de não ter conhecido Vamiré. Quanto seria para desejar a paz com aqueles gigantes loiros, laboriosos e ousados! Os dois afastados povos,[{107}] postos em comunhão através da distância, teriam ampliado o património do homem. Explorar-se-iam paragens desconhecidas: seria descerrado o grande abismo, conhecer-se-ia a região dos elefantes cornígeros; ver-se-ia a serpente monstruosa, tudo que a lenda referia, havia séculos.
Protegeu Élem. Não só proibiu qualquer violência contra ela, mas até lhe dispensou inteira liberdade de acção. De dia e de noite, consentia que ela vagueasse a seu grado, adiantando-se ou atrasando-se na marcha, e reprimia de tal maneira o azedume dos seus homens, que não aventuravam uma observação.
Élem reconhecia a generosidade do velho chefe. Com o decorrer dos dias, a sua mágoa amadurecia, como um fruto ao sol do Estio. Solitária, erguia os braços para o Invisível, orava, suplicava. Os seus olhos exploravam atentos o rio, o rio amigo, em que a barca do Pzann a trouxe durante semanas. O aspecto das plantas aquáticas, dos nevoeiros errantes, inebriava-a, sufocava-a. Uma sede mortal, um profundo instinto de sobrevivência, sangue rubro e ardente, prestes a jorrar das veias, um sentimento de insubmissão e de capricho, tudo isto, que inda hoje é o perigo dos nossos amores, a perturbava e a tornava mortalmente amante e desesperada.
Ao sétimo dia porém, chegou um momento de calma. Através das brumas da alvorada, Élem julgou avistar entre os caniçais a barca de Vamiré. Estava longe, não distinguia bem, mas, com toda a sua energia de primitiva, convenceu-se da presença do Pzann.[{108}]
Muitas vezes, durante a marcha, teve tentações de se extraviar a bater mato, a quedar-se nas ribanceiras. Distraída e meditabunda, quando chegou a hora do sono, não pôde dormir, e os seus olhos semicerrados devassavam as trevas.[{109}]
[XIV
Reconquista]
Ora, enquanto o bando dormia, de noite, o velho chefe lia na fogueira o evolar desordenado da vida dos ramos; fogueira que se desatava em numerosos seres subtis e coloridos, impulsiva e crepitante, matizada de fino azul, de amarelo claro, de purpura; rasteira sobre as cinzas, de vibrações rápidas, alta e ondulante sobre os ramos, esparsa na extrema do fumo, que, a revezes, se iluminava e se rasgava; fogueira, de onde surgiam mil quimeras, grutas, florestas, grandes lagos rutilantes, um mundo transitório, ateado ou apagado por sopros desconhecidos, mundo que se exaltava e se acalmava e se tornava mais furioso, dominado e terrível, devorador de florestas, subjugado pela mão de uma criança.
E o oriental dizia:
—Salve, fogo, mais belo que a água, tua inimiga, suave para a terra, que tu fecundas, suave para o homem, que tuas caricias aquentam.—
E pareceu meditar profundamente. Talvez ele pressentisse[{110}] então a grande maravilha do futuro, a era da metalurgia. Já o calor fundia partículas de terra ou de pedra, e na cinza se deparavam pequenas barras solidificadas. E guardavam-se com desvelo estas lágrimas de metal. Havia-as de diversas cores: amarelas, pardas, brancas. Batendo-as com uma pedra, davam-lhes formas diversas, ou as partiam em lâminas; mas estas lâminas eram frágeis, flexíveis ou quebradiças, e ninguém supunha ainda que estivesse ali o competidor da pedra, do osso, do chifre.