—O fogo corre em nossas veias,—murmurou o velho, voltando ao seu misticismo;—e por isso é que a nossa boca expele fumo, como um brasido em que se deita água.—

Respirou voluptuosamente, ufano daquela ideia, e, ao contemplar a noite, dilatava-se-lhe o coração.

O clarão da fogueira amortecia as estrelas zenitais; mas tremeluziam numerosas e pequeninas no horizonte do rio.

—O fogo da lua, o das estrelas, é um fogo frio como o olhar dos homens...—

Calou-se. O ruído nocturno dos sarçais parecia mais frouxo. Muito ao longe, bramia um leão, e a sua bela voz guerreira parecia emergir das cavidades abissais, ou ser eco de montanha, desmedidamente poderosa e grave.

Não corria uma aragem. Sobre a claridade do rio, espalmavam-se aqui e além as manchas de vegetação, e as sombras coavam angustias na alma.

O velho sentiu a impressão de tudo isto. Ergueu-se. A fogueira iluminou toda a sua forte corporatura.[{111}]

Pareceu inquietar-se de ver que Élem tinha os olhos abertos, e aplicou o ouvido.

Um ligeiro ruído, como de animal que rasteja, vinha da escuridão da selva; logo após, agitou-se o mato, e ouviu-se um pequeno choque, como de uma pedra contra outra.

—A pé!—bradou ele, de arco tenso na direcção do ponto suspeito.