Um rumor de galope, vago ao principio, aproximava-se, evidenciava-se. O veado reapareceu, tão rápido mas menos exacto na direitura da carreira, suando, de respiração alta, ofegante. A cinquenta passos, o leopardo, sem fadiga, gracioso, já triunfante.
O homem admirava, desgostoso, a pronta vitória do[{5}] carnívoro, com um desejo crescente de intervir, quando sobreveio uma peripécia terrível. Lá em baixo, à orla da moita de bordos, em pleno luar, ressaía um vulto maciço, em que, pelo rugido cavo, pelo salto de vinte cúbitos, e pela farta crina, o homem reconheceu a quase soberana fera,—o leão.
O pobre veado, desorientado pela surpresa, deu uma volta precipitada e desastrosa, retrocedeu, e achou-se logo sob as garras cortantes do leopardo.
Luta rápida, sangrenta; o arranco do veado agonizante; e o leopardo, sobressaltado, ficou imóvel: o leão aproximava-se tranquilamente. A trinta passos, estacou, com um bramido, sem preparar assalto. O leopardo quaternário, corpulento, hesitou, furioso de se lhe ter malogrado o esforço, e pensando em aventurar-se a combater. Mas a voz do dominador, agora mais alta, reboou pelo vale, dando sinal de ataque, e o leopardo cedeu, afastando-se vagarosamente, de cabeça voltada para o tirano, com um miar de raiva e de humilhação. O outro despedaçava o veado; devorava, a grandes pedaços, a presa roubada, sem pensar no vencido, que prosseguia na retirada, devassando a penumbra com os seus olhos de oiro-esmeralda.
O homem, a quem a vizinhança do leão aconselhava prudência, aconchegava-se cautelosamente no seu abrigo frondoso, mas sem terror, disposto para qualquer aventura.
Depois de alguns instantes de deglutição furiosa, o leão interrompeu-se: perturbação, dúvidas, transpareceram em todo o seu aspecto, no tremor da juba, no[{6}] espreitar angustioso. De repente, com a força de uma convicção, tomou o veado, deitou-o para as costas e pôs-se em fuga. Teria andado quatrocentos cúbitos, quando junto a orla, onde ele tinha aparecido, surgiu um animal monstruoso. Intermediário ao leão e ao tigre no aspecto e na forma, mas mais colossal, soberano das florestas e planícies, era o símbolo da força, erecto, sob a vaporosa claridade. O homem tremeu, abalado no intimo das suas entranhas.
Após ligeira pausa debaixo dos freixos, o animal prosseguiu na caça. Devastador como um ciclone, abrindo caminho sem esforço, perseguia o leão em fuga para o Oeste, enquanto o leopardo, parando, contemplava a cena. Os dois vultos foram desaparecendo, e o homem pensou em deixar o seu retiro porque o leopardo o inquietava pouco, quando a cena se complicou: o leão regressava obliquamente, por ter achado algum obstáculo, pântano ou fosso.
O homem sorriu, chasqueando o leão, por não ter calculado melhor a fuga, e retraiu-se para o seu esconderijo, porque os dois colossais antagonistas vinham na direcção dele. Como era natural, retardado pelo desvio e pelo peso do veado, o fugitivo perdia terreno.
Que fazer? O caçador estendeu a vista em torno de si: para alcançar algum choupo era mister galgar duzentos cúbitos e, além disso, o espeleu[[4]] trepava às árvores.[{7}] Quanto à rocha dos trogloditas, ficava ainda a uma distância dez vezes maior. Preferiu sujeitar-se à ventura.
A sua hesitação foi rápida.